A editora Gryphus generosamente nos enviou o primeiro capítulo do novo livro de Pema Chödrön, Acolher o indesejável (tradução de “Welcoming the unwelcome: wholehearted living in a brokenhearted world“), que já estamos usando como base para algumas práticas na comunidade olugar.org e talvez estudemos no ano que vem, assim como fizemos longamente com o livro Quando tudo se desfaz. É um ensinamento sobre o bodhichitta, a intenção altruísta que converge a mente livre da sabedoria e o coração aberto da compaixão. Deixamos abaixo na íntegra. Desfrute!

Ao se ocupar de ensinamentos espirituais, é bom ter conhecimento das suas intenções. Por exemplo, você pode questionar: “O que estou querendo ao ler este novo livro com seu título sinistro Acolher o Indesejável?” Está lendo porque os tempos estão incertos e você quer algumas pistas do que pode lhe ajudar  a atravessar o que vem pela frente? Está lendo para adquirir sabedoria sobre si mesmo? Espera que ele o ajude a superar certos padrões mentais que prejudicam seu bem-estar? Ou ganhou-o de presente – com muito entusiasmo – e agora não quer entristecer a pessoa que o presenteou, deixando de lê-lo?

Seus motivos podem incluir alguns ou todos acima. São todas boas razões (até a última) para que você leia este ou qualquer livro. Mas, na tradição do Budismo Mahayana, à qual eu pertenço, ao estudar os ensinamentos espirituais, estipulamos uma motivação ainda maior, conhecida como bodhichitta. Em sânscrito, bodhi significa “desperto” e chitta “coração” ou “mente”. Nosso objetivo é despertar coração e mente de modo pleno, não apenas para nosso maior bem-estar, mas também para levar benefício, consolo e sabedoria a outros seres vivos. Que outra motivação poderia ser superior?

O Buda ensinou que todos nós, em essência, somos bons e amorosos. Devido a essa bondade básica, naturalmente queremos apoiar os outros, em especial aqueles de quem somos próximos e aqueles que passam por maiores necessidades. Temos uma intensa consciência de que outros precisam de nós, assim como nossa sociedade e o planeta como um todo, especialmente agora. Queremos fazer o que pudermos para aliviar o medo,  a raiva e o doloroso desamparo que muitos experimentam hoje em dia. Entretanto, o que muitas vezes atrapalha, quando tentamos ajudar, é que nos deparamos com nossa própria confusão e tendências habituais. Ouço dizer: “Eu queria ajudar adolescentes vulneráveis, então fui estudar, me preparar e parti para a assistência social. Dois dias no trabalho e descobri que odiava a maioria dos garotos! Meu primeiro sentimento foi: ‘Por que não podemos simplesmente nos livrar de todos esses garotos e encontrar uns mais legais, que colaborem comigo?’. Foi então que percebi a necessidade de consertar o que havia de errado em mim mesmo.”

Bodhichitta, ou coração desperto, começa pelo anseio de nos livrarmos de qualquer coisa que nos atrapalhe, no intento de ajudar os outros. Desejamos nos livrar de nossos pensamentos confusos e padrões habituais que encobrem nossa bondade essencial, inata, de modo a sermos menos reativos e menos presos ao nosso antigo modo de ser. Compreendemos que, ao irmos além, seja em que grau for, de nossas neuroses e hábitos, conseguiremos ficar mais disponíveis para aqueles adolescentes, para nossos familiares, para a comunidade como um todo ou para os estranhos que encontramos. Interiormente, talvez ainda estejamos passando por fortes sentimentos e reações, mas, se soubermos como trabalhar essas emoções, sem cair em nosso padrão de comportamento, estaremos nos disponibilizando para os demais. E, mesmo que não haja nada substancial que possamos fazer para ajudar, as pessoas sentirão nosso apoio, o que ajuda muito.

Bodhichitta começa com essa aspiração, mas não para por aí. Bodhichitta também é um compromisso. Nós nos comprometemos a fazer tudo que for preciso para nos livrarmos completamente de todas as variantes de confusão, hábitos inconscientes  e sofrimentos que nos assolam, pois isso nos impede de estar disponíveis para os outros. Na linguagem do budismo, nosso compromisso máximo é atingir a “iluminação”. Em essência, isso significa saber quem realmente somos. Uma vez iluminados, estaremos totalmente ligados à nossa natureza mais profunda, que é fundamentalmente franca e generosa, compreensiva e disponível ao próximo. Saberemos que isso é verdadeiro, sem qualquer dúvida, sem nenhum retrocesso. Nesse estado, possuiremos o máximo possível de sabedoria e habilidade, que nos possibilitarão beneficiar os outros e ajudá-los a despertar de modo pleno.

Para preencher o compromisso de bodhichitta, precisamos aprender tudo o que há para aprender sobre nosso coração e nossa mente. É um grande trabalho. Provavelmente teremos que ler livros, ouvir ensinamentos e refletir profundamente sobre o que estudamos. Com uma prática regular de meditação sentada, também aprenderemos muito a nosso respeito. No final do livro incluí uma técnica simples de meditação, que pode ser usada em qualquer lugar. Por fim, precisaremos testar e esclarecer nosso conhecimento crescente, aplicando-o às nossas vidas, às situações em que nos encontramos naturalmente. Quando o bodhichitta se torna a base para nosso modo de viver cotidianamente, tudo que fazemos fica significativo. Nossa existência torna-se incrivelmente rica. É por isso que faz todo sentido nos lembrarmos de bodhichitta sempre que possível.

Às vezes, as maravilhosas motivações de bodhichitta afloram facilmente, mas quando estamos ansiosos ou preocupados conosco, quando nosso grau de autoconfiança está baixo, bodhichitta pode parecer além do nosso alcance. Nessas fases, o que podemos fazer para animar nosso coração e gerar o anseio corajoso de acordar para o benefício alheio? O que podemos fazer intencionalmente para dar meia-volta em nossa mente, quando ela está se sentindo pequena?

Meu primeiro mestre, Chögyam Trungpa Rinpoche, ensinou-me um método para mudar o curso da mente, que eu ainda sigo. A primeira coisa a fazer é lembrar de uma imagem ou história comovente, algo que aqueça naturalmente seu coração e o ponha em contato com as aflições humanas. Talvez alguém que você conheça tenha sido diagnosticado com câncer ou uma doença degenerativa. Ou uma pessoa querida, que tenha problemas com drogas ou álcool e estava bem por muito tempo, acabou de ter uma recaída. Ou, quem sabe, um amigo íntimo tenha sofrido uma grande perda. Talvez você tenha visto uma cena triste quando foi ao mercado, como uma interação dolorosa entre pai, ou mãe, e filho. Você pode também pensar na mulher sem teto que sempre vê a caminho do trabalho. E tem aquela notícia que leu ou a que assistiu, uma reportagem sobre fome ou sobre a deportação de uma família.

Trungpa Rinpoche dizia que o modo de despertar bodhichitta era “começar com o coração partido”. Proteger-se da dor – nossa ou alheia – nunca funcionou. Todos querem se livrar do sofrimento, mas a maioria das pessoas age de modo a somente piorar as coisas. Proteger-se da vulnerabilidade de todos os seres vivos – incluindo a nossa própria – nos aliena da experiência completa da vida. Nosso mundo encolhe. Quando nossos principais objetivos são adquirir conforto e evitar desconforto, começamos a nos sentir desligados dos demais e até ameaçados por eles. Assim nos encerramos num emaranhado de medo. E, quando muitas pessoas e países adotam esse tipo de abordagem, o resultado é uma situação global conturbada, cheia de dor e conflito.

Ao fazermos tanto esforço para proteger o coração da dor, nos machucamos cada vez mais. Mesmo ao percebermos que isso não ajuda, é um hábito difícil de romper. Trata-se de uma tendência humana natural. No entanto, quando geramos bodhichitta, contrariamos essa tendência. Em vez de nos esquivarmos, despertamos a coragem de olhar francamente para nós mesmos e para o mundo. Em vez de sermos intimidados pelos fenômenos, passamos a abraçar todos os aspectos de nossas vidas inesgotavelmente ricas.

É possível acessar bodhichitta ao simplesmente nos permitir a vivência de nossos sentimentos brutos, sem sermos sugados por nossas ideias e histórias a respeito deles. Quando me sinto só, por exemplo, posso culpar a mim mesma ou fantasiar sobre as delícias de ter uma companhia. Mas tenho também a oportunidade de simplesmente tocar naquele sentimento de solidão e descobrir que bodhichitta está bem ali, no meu coração vulnerável. Posso perceber que minha solidão não difere daquela que todos os outros sentem neste planeta. Da mesma forma, meus sentimentos indesejados, de estar sendo deixada de lado ou acusada injustamente, podem me conectar com todos aqueles que estão sofrendo dessa mesma maneira.

Quando me sinto constrangida, fracassada, quando sinto que algo está fundamentalmente errado comigo, bodhichitta está presente nessas emoções. Quando cometi um grande erro, quando fracassei e não fiz o que havia me disposto a fazer, quando sinto a ferroada de ter decepcionado todo mundo – nessas horas tenho a opção de mobilizar o coração desperto de bodhichitta. Se eu de fato meconecto com minha inveja, raiva ou preconceito, estou me colocando no lugar de toda a humanidade. A partir desse ponto, o anseio de despertar para aliviar o sofrimento do mundo vem naturalmente.

Há uma longa história de pessoas que conseguiram desvelar sua bondade e coragem inatas através de uma prática dedicada. Algumas delas são figuras religiosas famosas, mas a maioria não é conhecida, como meu amigo Jarvis Masters, que está num presídio da Califórnia há mais de trinta anos. Nem sempre estaremos inspirados a seguir esses exemplos e ir destemidamente contra   a corrente. Nossa autoconfiança irá oscilar. E os ensinamentos nunca nos dirão para dar um passo maior que as pernas. No entanto, se aumentarmos gradativamente nossa capacidade de estar presentes com nossa dor e com os sofrimentos do mundo, uma sensação cada vez maior de coragem irá nos surpreender.

Na prática de cultivar um coração partido, conseguimos criar a força e a habilidade necessárias para abarcar cada vez mais. Trungpa Rinpoche, que tinha enorme capacidade de enfrentar o sofrimento sem lhe dar as costas, sempre recordava de uma vez, no Tibete, quando ele tinha cerca de oito anos de idade. Ele estava no telhado de um mosteiro e viu um grupo de meninos apedrejando um filhote de cachorro até a morte. Apesar da distância, ele conseguia ver o olhar apavorado do cachorrinho e ouvir as risadas dos meninos, que faziam aquilo para se divertir. Rinpoche queria fazer algo para ajudar o cachorro, mas não era possível. Pelo resto da vida, bastava ele se lembrar daquele momento para sentir no coração um forte desejo de aliviar o sofrimento. A lembrança do cachorrinho incitava urgência ao seu desejo de despertar. Foi isso que o impulsionou a diariamente fazer o melhor uso de sua vida.

A maioria das pessoas, de um modo ou de outro, tenta fazer  o bem. É um resultado natural da nossa bondade inata. No entanto, nossas motivações positivas muitas vezes se misturam a outros fatores. Algumas pessoas, por exemplo,  tentam  ser úteis porque se sentem mal consigo mesmas. Então esperam dar uma boa impressão aos olhos do mundo. Através de seus esforços, esperam aumentar o prestígio com os outros, o que então poderá aumentar sua autoestima. Baseada em minha longa experiência de viver em comunidades, posso dizer que essas pessoas costumam realizar um volume impressionante de coisas. Ouve-se dizer: “A Maria vale por seis”, ou “Como eu queria que todo mundo fosse como o Jordan”. Na maioria dos casos, são essas pessoas que você quer na sua equipe. Mas, ao mesmo tempo, elas não parecem próximas do despertar. Acho que todos conhecem alguém que diz coisas como “Eu vivo dando de mim e nunca me agradecem!” Esse tipo de frustração é um sinal de que questões subjacentes não estão sendo trabalhadas.

Algumas pessoas trabalham muito, dia e noite, ajudando o próximo, mas sua motivação mais forte é a de ocupar-se para não sentir a própria dor. Algumas são movidas pela ideia de serem “boas”, incutida pela família ou cultura. Outras, por sentimentos de obrigação ou culpa. Algumas fazem o bem para ficarem longe de confusões. Outras são induzidas pela perspectiva de recompensas, nesta vida ou talvez numa existência futura. Algumas são até motivadas por ressentimento, raiva ou necessidade de controle.

Se dermos uma boa olhada para dentro, talvez descubramos que motivações desse tipo se misturam ao nosso desejo genuíno de ajudar o próximo. Não devemos nos flagelar em relação a isso, porque todas essas motivações vêm da nossa tendência humana de buscar a felicidade e evitar a dor. Contudo, elas nos impedem de ter uma conexão maior com nosso coração e com o do próximo, o que dificulta mais profundamente nossa capacidade de beneficiar os outros.

Em contrapartida, a motivação de bodhichitta leva a resultados mais profundos e duradouros, porque se baseia no entendimento da origem do sofrimento. No plano exterior, há o sofrimento imenso que vemos ou de que somos informados e que pode nos atingir de vez em quando – crueldade, fome, medo, abuso e violência, que castigam pessoas, animais e o próprio planeta. Tudo isso se origina de emoções como ganância e agressividade, que por sua vez têm origem na falta de entendimento da bondade inata da nossa verdadeira natureza. Essa ignorância está na raiz de todo nosso sofrimento. Está por trás de tudo que fazemos para prejudicar a nós mesmos e aos demais. Quando acordamos bodhichitta, nos comprometemos a superar tudo que obscurece nossa sabedoria interior e amabilidade, tudo que nos separa de nossa capacidade natural de nos identificar com os outros e beneficiá-los.

Esse despertar para nossa verdadeira natureza não acontece da noite para o dia. E, mesmo quando começamos a despertar e nos encontramos cada vez mais aptos a ajudar o próximo, é preciso aceitar que nem sempre podemos fazer algo – pelo menos não de imediato. Sem arrumar desculpas ou sucumbir à indiferença, precisamos reconhecer que é assim que as coisas são. Inúmeras pessoas e animais sofrem neste instante, mas o quanto podemos fazer para impedir isso? Se estivermos no telhado de um mosteiro, vendo meninos apedrejando um filhote de cachorro, talvez naquele momento só nos reste ficar ali, não dar as costas e deixar que aquela tragédia aprofunde nosso bodhichitta. Depois, podemos nos permitir a curiosidade de saber o que faz com que pessoas machuquem animais. Em vez de considerar o comportamento dos meninos como algo alheio a nós, podemos buscar suas raízes dentro de nós mesmos. Será que a agressividade e a cegueira por trás de tais atitudes residem em nosso coração? Se conseguirmos encontrar um denominador comum dessa forma, talvez estejamos em melhor posição de comunicação na próxima vez em que nos depararmos com algo similar. E, quando despertarmos completamente para nossa verdadeira natureza, teremos uma capacidade muito maior de influenciar os outros. No entanto, mesmo assim, o que podemos fazer para ajudar estará limitado pelas circunstâncias.

Portanto, ao acordarmos bodhichitta, é importante saber que é um projeto de longo prazo. Teremos que fincar pé por muito tempo e investir enorme esforço e paciência. A visão suprema de bodhichitta é a de ajudar cada ser vivo a despertar para sua verdadeira natureza. Nossa única chance de realizar isso é primeiramente atingindo nossa própria iluminação. Ao longo do caminho, podemos dar um passo de cada vez, dando nosso melhor para manter o anseio e comprometimento durante os altos e baixos da vida.

Ao ler este livro, por favor, tente focar no contexto mais amplo de bodhichitta. Isso será muito mais proveitoso do que ler para obter estímulo intelectual. Se você começar com o coração partido, com um coração que anseia em ajudar o próximo, é possível que descubra algumas coisas aqui e as leve para sempre. Entre todas as palavras deste livro, pode haver um parágrafo ou uma frase – talvez algo cuja importância eu nem tenha percebido – que entrará em plena sintonia com você. Alguma coisa pode mudar sua perspectiva e realmente aproximá-lo da capacidade de aliviar o sofrimento no mundo.

Estes ensinamentos não são simplesmente ideias minhas. São minha tentativa de transmitir a sabedoria que recebi dos meus mestres, que a receberam dos mestres deles e assim por diante, numa linha de sábios que remonta a milhares de anos. Se você os encarar com a motivação de bodhichitta, não há limite para o benefício que podem trazer. Quando estamos verdadeiramente ligados ao anseio de ajudar o próximo e comprometemos nossas vidas a esse propósito, podemos nos considerar incluídos entre os mais afortunados sobre a Terra.

Acolher o indesejável

Nos últimos sete anos, Pema Chödron praticou vigorosamente, reduzindo sua agenda de ensinamentos, sem lançar nenhum livro. Em Acolher o indesejável, recebemos conselhos e práticas cotidianas que evidenciam ainda mais a profundidade de sua realização, além de nos sentirmos muito íntimos de sua vida, a cada história pessoal compartilhada. Deixamos aqui o PDF das páginas iniciais para você ter um vislumbre do livro pelo sumário.

Você pode adquirir o livro impresso no site da editora Gryphus (recomendamos para apoiar o trabalho delas!). E a edição digital no Apple Books ou para Kindle na Amazon.

O estudo do livro Quando tudo se desfaz: orientação para tempos difíceis, também de Pema Chödrön, durou 13 semanas, foi todo gravado e está disponível em vídeos e áudios para quem entrar agora na comunidade. Há participantes fazendo esse estudo atualmente. Também exploramos as práticas da compaixão no estudo de Um coração sem medo, de Thupten Jinpa, e recentemente no ciclo “Mãos e olhos”, com a participação de Roshi Joan Halifax com dois ensinamentos em vídeo sobre bodhicitta, também inteiro disponível. Se tiver interesse, pode entrar diretamente em olugar.org ou nos escrever: coordenacao@olugar.org