Arte de Fábio Rodrigues

 “Dizer não às más ideias e aos maus atores simplesmente não basta. O mais firme dos nãos tem de ser acompanhado por um sim ousado e visionário — um plano para o futuro que seja crível e atraente o suficiente para que um grande número de pessoas se movimente para vê-lo realizado.”
—Naomi Klein (no livro “Não basta dizer não”)

Observe a quantidade de tempo que perdemos repercutindo falas absurdas de políticos, memes e hashtags, distraídos por uma enxurrada de desinformação. Sem querer, ficamos impotentes. Deixamos que a notícia do dia sequestre nossas conversas e defina nossos movimentos. Quando os problemas se intensificam, nossa reação habitual é negar, reclamar, nos juntar pela oposição, apontar culpados e inimigos. Isso quando não “ligamos o foda-se” e tentamos só buscar algum sucesso pessoal.

E se a gente começar a afirmar outra coisa? Em vez de apenas combater monstros e problemas, e se olharmos para a nossa própria bondade e criatividade? E se conectarmos ainda mais nossas qualidades positivas, sonhos, visões amplas e comunidades? E se trocarmos desespero por compaixão, medo por alegria?

É hora de retomarmos nossa dignidade. É hora de dizer sim: um outro mundo é possível. Se não deixamos nossa visão ser aprisionada, a vida ser rebaixada e as conversas serem pautadas externamente, somos muito mais poderosos do que parecemos. Como diz Alan Wallace, esse mundo precisa ser chacoalhado. E calhou de ser por nós. Quem mais poderia chacoalhar o mundo?

Aproveitando o clima de começo de ano, convidamos Elizabeth Mattis-Namgyel, Ailton Krenak, Reinaldo Nascimento e Joan Halifax para nos orientar por quatro semanas de estudo e prática. Será online, com participantes de todo canto do Brasil e de outros países. E vamos materializar essa visão em um presente especial que em breve pode estar em sua casa.

Veja abaixo como será e comece o ano praticando junto conosco.

Convidamos grandes seres para sonhar conosco e sugerir práticas

Elizabeth Mattis-Namgyel está há 35 anos imersa em práticas contemplativas budistas, sete deles em retiro fechado, sob orientação de Dzigar Kongtrul Rinpoche. Ela tem formação em antropologia e mestrado em estudos budistas. Seus dois livros foram publicados no Brasil: O poder de uma pergunta aberta (que estudamos coletivamente no lugar por 17 semanas) e A lógica da fé (sobre interdependência, que pretendemos estudar em breve).

Ailton Krenak é escritor, uma das maiores lideranças do movimento indígena e um grande pensador brasileiro. Nasceu na região do Vale do Rio Doce, um lugar cuja ecologia se encontra profundamente afetada pela atividade de extração mineira. Seu inesquecível discurso na Assembleia Constituinte, em 1987, quando pintou o rosto com a tinta preta do jenipapo para protestar contra o retrocesso na luta pelos direitos indígenas, foi decisivo para o reconhecimento dos direitos indígenas na Constituição Federal. É professor doutor Honoris Causa pela UFJF. Além de O lugar onde a Terra descansa (2000), seu livro Ideias para adiar o fim do mundo foi publicado em 2019.

Reinaldo Nascimento é terapeuta social, educador físico e psicopedagogo. Ajuda crianças e jovens a superarem traumas provocados por situações extremas, como guerras e desastres naturais, através da arte e do brincar. É cofundador da Associação da Pedagogia de Emergência no Brasil, membro e coordenador pedagógico das intervenções do time internacional. Em 2012, esteve no Quênia, trabalhando num abrigo para 80.000 refugiados. Esteve também nas Filipinas e no Líbano (2013), na Faixa de Gaza (2014), no Nepal e na França (2015), no Equador (2016), no México e em Janauba – MG (2017), na queimada da Califórnia nos EUA (2018), em Moçambique e em Brumadinho (2019), e no Iraque (anualmente de 2014 a 2017). Reinaldo ajudou a criar e orienta a Escola de Resiliência Horizonte Azul, em SP. Além de oferecer cursos e palestras, trabalha na formação de professores e educadores no Brasil e por todo o mundo.

Roshi Joan Halifax é uma extraordinária professora zen budista, doutora em antropologia e uma das pioneiras no trabalho com a morte e o morrer. Ela é a fundadora e a abade do Upaya Institute and Zen Center, em Santa Fe (EUA), de onde falará conosco. Dirige o programa Being with Dying e fundou o Upaya Prison Project e o Nomads Clinic. Foi aluna de Seung Sahn e recebeu transmissões de linhagem de Thich Nhat Hanh e de Roshi Bernie Glassman. Com 77 anos, tem mais de quatro décadas de experiência em práticas contemplativas e um natural engajamento social. Seus livros mais recentes são Presente no morrer e Standing at the edge.

Focos de cada semana

Na primeira semana, com Elizabeth Mattis-Namgyel, vamos ampliar nossa visão de quem somos e do quanto podemos nos transformar. Como aumentar nossa curiosidade diante de situações complexas? Como fazer da sabedoria uma experiência viva e praticável a qualquer momento? “Meditação” é o que achamos que é? É mesmo possível liberar o sofrimento? O que seria “despertar” ou “se iluminar”? Como entender e se empoderar do caminho espiritual, sem ficar tão refém de técnicas isoladas?

Na segunda semana, com Reinaldo Nascimento, vamos ouvir histórias de crianças e jovens que atravessaram o sofrimento para evidenciar um processo que precisamos fazer dentro de nós e por todo o tecido social do Brasil: reconhecer o trauma, a ferida, a desconfiança generalizada diante de tanta violência e ativar nossos sonhos, nosso potencial de ação, de alegria, de brincadeira, de seguir livres. Como ele diz, “no fim das contas, é sobre retomar a confiança no outro”. Vamos também fazer a pergunta que mais surge entre os participantes do lugar: como é essa atitude que vê tanto sofrimento e consegue ficar ali sem surtar, sem fugir, sem se dopar… Como ficar em meio ao sofrimento e trazer benefícios?

Na terceira semana, com Ailton Krenak, queremos fazer ressoar vozes que precisam ser ouvidas por todos, além de gerarmos mais interesse pela atitude dos povos originários. O que não podemos ignorar se quisermos oferecer um futuro para as crianças e para as próximas gerações? Como podemos habitar a Terra de forma mais digna e realista? Quais processos podem curar nossa desconexão com a natureza e evitar ainda mais exploração, crescimento e destruição?

Na quarta semana (e esse é só o começo), com Roshi Joan Halifax, vamos aprender sobre a possibilidade de ficarmos abertos para transformar sofrimento em energia de ação. Precisamos de esperança para transformar o mundo? Qual a fonte do destemor para que possamos ser mais ousados e criativos? Como exercitar nossa imaginação e desbloquear nossa capacidade de sonhar? O que são bodisatvas e como gerar essa atitude de tomar a responsabilidade pelos outros?

A mediação das perguntas dos participantes será de Gustavo Gitti, de Fábio Rodrigues e de Polliana Zocche. Nos encontros com Elizabeth Mattis-Namgyel e Joan Halifax, haverá tradução consecutiva da querida Jeanne Pilli, não se preocupem.

Uma flor para você!

“Eu queria que as pessoas olhassem para as plantas nascendo de novo, porque é fascinante admirar o ciclo da vida.”
—Emicida

“Quando a lucidez se apresenta, ela não se apresenta pela força, ela se apresenta como flor.”
—Lama Padma Samten

“A hora de florescer é agora.”
—Patti Smith

Essa é uma visão muito poderosa para ser apenas “estudada”. Precisamos praticá-la, torná-la viva. Então por que não materializá-la? Para realmente proclamar um grande “Sim, um outro mundo é possível!”, podemos colocar algo em nossas casas e abri-las mais e mais à nossa comunidade. É um jeito de nascermos uns aos outros como agentes afirmadores da vida e da dignidade humana.

Para isso, está nascendo uma flâmula serigrafada em tecido com tingimento natural, produzida por jovens que participam de um projeto de capacitação e geração de renda, em Alto Paraíso de Goiás, em parceria com o Instituto Caminho do Meio, o Instituto Maanaim e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. As fotos abaixo são da querida Luciana Pinto, que está coordenando o trabalho.

A arte é de Fábio Rodrigues, artista e também um dos coordenadores do lugar, com base em ensinamentos de Lama Padma Samten e Kazuaki Tanahashi, que remontam ao mestre Dogen: a flor como símbolo da transformação da visão, inseparável da transformação do mundo. Fábio está criando a partir da contemplação do jacatirão, do manacá, da quaresmeira (tibouchinas), pois estão por quase todo o Brasil. São plantas pioneiras, ou seja, uma das primeiras espécies a surgir em uma área degradada que começa a se regenerar. Bem o que precisamos, não? Elas nascem entre dezembro e março, então o auge da floração será no tempo em que estivermos juntos durante o intensivo.

Ao participar do intensivo online e pendurar essa flâmula em sua casa, você apoiará um projeto de capacitação de jovens em Alto Paraíso. Essa é uma ação minúscula num mundo que precisa de tanto mais… Porém, é com experimentos pequenos assim que a gente aprende a reconhecer a força já existente em redes compassivas que muitas vezes passam despercebidas.

Vamos enviar pelo correio uma flâmula serigrafada para 700 pessoas: 300 para as primeiras pessoas que entrarem no lugar para participar do intensivo; e 400 para as pessoas que já participam e quiserem receber.

Não adianta pedir agora! Vamos abrir um formulário no ano que vem. Estamos contando mais para você acompanhar e se alegrar. E, claro, se quiser já começar a participar do lugar para se ambientar antes do intensivo, será um prazer.

Quando e como

Quando: de 26 de janeiro a 17 de fevereiro de 2020. O encontro de abertura acontecerá domingo, das 19h30 às 21h, para que a Jeanne Pilli possa traduzir. Os encontros seguintes acontecem às segundas, das 19h30 às 21h30 (horário de Brasília). Não há problema algum se você não conseguir acompanhar ao vivo. As palestras serão gravadas e os vídeos ficarão disponíveis em uma página especial junto com textos de apoio, práticas sugeridas e espaço de relatos.

Como: a cada semana, teremos uma palestra online de cerca de duas horas (gravada e disponível na íntegra a qualquer momento), um texto de apoio e uma prática para experimentarmos coletivamente. Depois dessas quatro semanas, vamos seguir assim por todo o ano, com outras práticas coletivas, meditações guiadas e ciclos de estudos, toda semana.

É por isso que a participação no intensivo é inseparável da participação no lugar. Para alguns, esse intensivo será algo pontual — com começo, meio e fim. Para outros, servirá de pontapé para processos que vamos aprofundar e colocar mais e mais em prática em nossas vidas, de modo contínuo e coletivo, durante meses ou anos.

Quer participar do intensivo?

Para participar do intensivo, basta entrar no lugar (veja abaixo como funciona).

Se você já está no lugar, está automaticamente dentro do intensivo, é só relaxar e esperar. O intensivo é mais um dos movimentos que fazemos de modo contínuo para apoiar o florescimento das pessoas (como manhãs de silêncio, práticas semanais e grupos de estudos).

E se lembrar agora de uma pessoa querida que poderia se interessar e se beneficiar, passe esse link para ela: olugar.org/sim

O que é o lugar?

O lugar é uma comunidade online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação. Cada pessoa é desafiada a se familiarizar com seu mundo interno e investigar diretamente, colocando à prova da experiência: Como a gente se transforma, pra valer, sem oba-oba ou fogos de artifício, com o pé no chão do cotidiano? O que é felicidade genuína? Como aproveitar os problemas nos relacionamentos, no trabalho, nas finanças, na vida em geral, em um caminho de florescimento humano?

Uma prática por semana, todos juntos

Cada vez mais desconfiamos de ações isoladas e pontuais, de epifanias de fim de semana. Apostamos em continuidade, em praticar e tornar vivo o que já estamos cansados de entender. A cada semana, todos os participantes do lugar se juntam para experimentar uma prática e conversar sobre suas experiências, afinal estamos sofrendo do mesmo adoecimento coletivo: egoísmo, ansiedade, depressão, falta de sentido, desconexão, ciúme, carência, raiva, competição…

Para você entrar e participar do lugar

O valor para entrada é R$ 88 por mês*, via cartão de crédito. Se quiser fazer por depósito bancário, clique aqui. Se você fala português, mas não é brasileiro (não tem CPF), escreva para nós: coordenacao@olugar.org

O lugar é uma empresa bem pequena (somos seis: Gustavo, Polliana, Eduardo, Isabella, Fábio e Geovana). Somos sustentados pela generosidade direta dos participantes, que se alegram em apoiar esse trabalho.

A liberação de acesso é imediata e você pode cancelar a qualquer momento. Para entrar via cartão de crédito, clique abaixo.

 

Quero Entrar

 

*Se você você sentir que esse valor não se adequa à sua realidade (especialmente se estiver em situação de vulnerabilidade social), não deixe que dinheiro seja um obstáculo. Isso só é possível pela generosidade de todos os participantes atuais. Escreva para nós: coordenacao@olugar.org

Nos vemos no lugar. Será um prazer seguir mais junto de você!