Mente
Cena de Mary Poppins

Quando ouvimos alguém em sofrimento, é muito raro nos comunicarmos com a capacidade da pessoa em direcionar sua própria mente e sua própria energia. Ainda que por vezes limitada, ela existe em algum nível em todos os casos, não tem por que ignorá-la.

Enfatizamos muito mais as atividades grosseiras: mudanças de comportamento, leituras, remédios, coisas a serem feitas, mudanças sociais que deveriam acontecer… Isso é crucial, claro, mas em paralelo quase nunca apontamos para os recursos internos, até porque não os descobrimos direito em nós. Nossa abordagem não é empoderadora porque nós mesmos estamos medrosos em relação às nossas dificuldades. Dzigar Kongtrul Rinpoche diz que fugimos de nossa mente ao deixar que estados mentais e emocionais nos intimidem, como se fossem maiores do que nós.

É claro que precisamos acolher a condição das pessoas e ter a paciência de talvez passar muito tempo apenas cuidando das condições externas: se olharmos a comunidade ao redor, alguém vai medicá-la, alguém vai começar a correr com ela, ajudá-la a comer melhor, a trabalhar, a se cuidar… Isso no melhor dos cenários.

Agora, parece até errado sugerir “Ei, ainda assim, você tem uma mente…” Parece que não seria compassivo fazer isso… Não me refiro ao ato grosseiro de chegar dizendo isso para ela, como um picareta autoajuda dizendo “You can do it, escolha a sua vida!”, mas da comunidade abrir espaços com essa visão do mundo interno para que tal possibilidade surja de algum modo ao seu redor, mesmo que seja por trás, no brilho do olho de quem chega falando qualquer coisa trivial: “E aí? Como você tá? Vamos tomar uma cerveja?” Não é necessário falar “Trabalhe com sua mente!”, basta manter isso em mente, nós mesmos: o outro tem uma mente!

Recursos como relaxar, se alegrar com a alegria dos outros, não se fixar, não colocar seriedade, lembrar dos seres de lucidez, transformar sofrimento em compaixão, observar diretamente a emoção… “Prática” significa isso. “Felicidade genuína” significa isso. Por que achar que algumas pessoas estão privadas disso?

É um milagre: como pode surgir do nada um relaxamento em uma situação tensa? Como pode surgir compaixão e energia constante onde só tem sofrimento? Como pode surgir sorriso e leveza onde só tem peso e seriedade? Da mente! Da cartola da mente!

Então, quando estamos imersos em uma situação e do nada lembramos de algum contato que tivemos com algum método de lucidez, estamos nos dando conta: “Sim, a cartola da mente! Eu não estava considerando trabalhar com essa liberdade, com tantos recursos…”

Melhor pensar que a mente é a bolsa mágica da Mary Poppins… Menos clichê.

Normalmente, ficamos com a mente exteriorizada, afirmando “Isso aconteceu!” ou buscando entender “O que está acontecendo?”. Isso faz parecer que o outro é isso, que a vida é isso, que você é isso, que tem solidez lá fora em tal e tal situação. E que não temos uma mente. Essa é a nossa tragédia: momento a momento, de novo e de novo, simplesmente esquecemos de que temos uma mente livre!

Uma chave para você praticar (que ouvi certa vez do Lama Padma Samten) é se perguntar:

“O que estou fazendo com a minha mente?”

Nesse momento, talvez fique óbvio: estou colocando seriedade, estou contraindo, estou autocentrado, estou fixado…

“Mas nossa mente não é livre e às vezes o sofrimento é muito intenso…”

Talvez surja o pensamento “Mas nossa mente não é livre, o sofrimento às vezes é muito intenso e somos confusos!”. Nesse caso, observe algo muito extraordinário: se o sofrimento é tão onipresente e consolidado assim, como foi possível essa pessoa parar, abrir o computador, acessar uma página específica, digitar no teclado seu relato e ainda ler as respostas?

O sofrimento não restringe completamente a mente. Mesmo em uma crise de raiva, às vezes paramos por microssegundos para focar em tirar água do filtro e não deixar cair. E logo retomamos a discussão. Esse momento precisa ser bem observado!

Reconhecer isso já é a porta de saída, pois significa começar a agir a partir da mente livre que existe até mesmo durante um sofrimento intenso, capaz de escrever sobre isso e pedir ajuda. Isso não é qualquer coisa, não é trivial. Isso é a mente livre operando. E o que é atravessar e pacificar o sofrimento senão seguir completamente a partir dessa liberdade e não mais daquela bolha? Isso não vem no futuro. No futuro isso só será 100% natural. Mas já podemos fazer algo assim agora, mesmo que por alguns minutos: teremos um gostinho da mesma liberação que vamos desfrutar completamente em breve.

Essas pequenas liberações já acontecem o tempo todo, mas não nos beneficiamos porque não as reconhecemos na hora.

Você está todo desanimado, desistente, sem nenhuma perspectiva. De repente, ouve um tiro na rua, sai pra ver, assustado, acordado, liga para a polícia, depois procura na internet, descobre que não foi nada, conversa com um amigo sobre isso… sua tarde ganhou algum sentido! Não é maravilhoso como sua mente é livre para se interessar por qualquer coisa?

Você está tenso por causa de um email, alguém te liga e do nada você começa a sorrir. Não importa se em breve voltará a ler o email, todo sisudo. Isso não importa: não estamos aqui com a motivação de ficar bem, estamos querendo ganhar clareza sobre como a mente opera. Como pode sua mente ter migrado para outro estado? Isso é a prova de sua liberdade. Aquele email não chegou a realmente confinar sua mente. Não é maravilhoso?

Um ponto delicado

Muita gente passa a vida toda repetindo: “É difícil, eu não consigo direcionar a minha mente. Você é insensível! Você não entende e todos os professores e professoras contemplativas são malucos de dizerem que o sofrimento pode ser liberado completamente, que a origem disso é ignorância e autocentramento…! Eles não sabem o que é depressão, eles não sabem o que é ser injustiçado…” E então aceitamos. Socialmente aceitamos o peso que a pessoa dá à sua situação e a visão sem saída que ela coloca na mesa.

Claro, vamos reconhecer que é um sofrimento sem fim, vamos acolher, ouvir, apoiar — não tem nem o que ficar debatendo, culpando, condenando ou criticando a pessoa. Mas, internamente, não ajuda comprar aquela visão como se fosse absoluta. Se aceitarmos que existe sofrimento sem possibilidade de saída, isso é mais negligência do que compaixão.

No âmbito relativo, sim, o sofrimento é sem saída: vamos adoecer e morrer, casamento leva a divórcio e assim por diante. Mas no âmbito absoluto, a partir do reconhecimento da natureza mais profunda da mente, é possível não ter sofrimento, é só olhar os exemplos dos seres completamente iluminados: sem fixações, sua mente manifesta compaixão e sabedoria, então eles passam por doença e morte livres de sofrimento. Como diz Sua Santidade o Dalai Lama, ele pratica todo dia para que até em sua última respiração ele não perca a mente altruísta, veja a cena final desse trailer:

Junto com o acolhimento podemos sempre convidar e nos relacionar com a mente livre do outro. Ele pode, sim, direcionar a sua mente, mesmo que seja só um pouquinho, só se interessando um pouquinho pela vida do outro, só relaxando um pouco, e assim por diante. Não falo nem de meditação, mas de todo tipo de prática mais autônoma com o mundo interno. E não falo nem de exigir que ele aceite nosso convite, mas que nós possamos fazer tal convite com o brilho de nossos olhos, confiantes de que a liberação completa é sempre possível. Estamos andando por aí e ouvindo os seres com esse convite nos olhos?

(Trecho de uma conversa que aconteceu no fórum do lugar, entre os relatos de uma prática sobre como podemos reduzir nossa seriedade.)