Contrariando o clichê, é minha esposa quem deixa a toalha molhada em cima da cama, junto com roupas que ela provou e decidiu não usar. É um bom cenário para me irritar. A razão parece simples, mas se movo a atenção da mente exteriorizada para o corpo emocional, o que realmente acontece ali? Eu me entorto diante de uma aparência e não sei como me desentortar sozinho. O jeito que encontro de acabar com a irritação é pedindo que ela mude, que não faça mais isso.

Vivemos assim quase o tempo todo, mexendo fora sem saber como mexer dentro. A prova dessa operação é a incapacidade de voltar a respirar em meio a uma crise sem antes resolver o que pensamos ser o problema. Se alguém nos diz “Respire, relaxe, é isso o que você realmente quer”, nós respondemos: “Me ajude a reconquistá-la, me ajude a ganhar mais dinheiro…” Ou seja: “Me ajude a respirar e relaxar do único jeito que sei respirar e relaxar.”

Ao usar as pessoas para equilibrar nosso mundo interno, viramos reféns de suas oscilações. Em vez de “Estou apaixonado!”, a gente deveria dizer: “Outra pessoa começou a modular minhas emoções!” Nossa sorte, que parece azar, é que o outro se rebela. Toda briga parece uma tentativa de ajustar a forma como estamos sendo usados ou pacificar a rebeldia do outro em não nos deixar usá-lo.

emancipação emocional
“Azul é a cor mais quente” é um bom exemplo de nossas histórias de amor romântico: se o outro modula minha energia, me desespero assim que ele age livremente além do esperado (o problema não é se relacionar, o problema é se relacionar desse jeito, sem autonomia de ânimo)

Para quebrar essa negociação infinita, precisamos investigar quais experiências internas nós desejamos quando queremos deitar de conchinha, beber caipirinha na praia, ter sucesso nos negócios, ser reconhecido entre os amigos, casar e morar junto. Se o que desejamos só surge em determinados locais e com pessoas especiais, estamos perdidos. Mas não é o caso! O que buscamos são qualidades como relaxamento, estabilidade e ludicidade, que talvez possam ser cultivadas de modo autônomo, sem nenhum fenômeno específico ao redor.

Ciúme, ódio, apego, carência, desconfiança, ansiedade, mágoa são gestos ou posições nas quais o corpo e a mente se enrijecem. Para voltar a fluir, tentamos controlar a situação ou, pelo menos, reinterpretá-la com diálogos internos e pensamentos positivos. Raramente experimentamos trabalhar a aflição na raiz, nos reequilibrando de modo direto e não discursivo, sem esperar que o outro mude ou que as condições externas melhorem.

Agora a pergunta crucial: o que estou fazendo para não mais me irritar? Será que eu sei ficar sozinho, em silêncio, relaxado, mesmo em meio a confusões longe de serem resolvidas? Conheço métodos para cultivar autonomia de ânimo? Como de fato me emancipar?

Quer colocar isso em prática?

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