Somos muito teóricos! Já deveríamos estar cansados de compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar

No fim de um ensinamento do Lama Padma Samten, por volta de 2002, me aproximei, todo orgulhoso: “Acho que já compreendi as visões mais elevadas, mas nada mudou!” O lama respondeu: “Então agora é o momento de sentar em silêncio.” Logo depois avisou que haveria um retiro de prática começando no dia seguinte. Não fui, demorei mais dois anos para tanto. 

Nossa cultura é tão teórica que parece que o único jeito de começar a fazer algo é primeiro ler. O livro funciona como um substituto da prática — eu não preciso agir, pois já comprei vários livros sobre isso. Quando a pessoa pede por livros sobre meditação, costumo sugerir grupos de prática e professores qualificados. Se alguém pergunta por textos sobre traição, melhor conversar pessoalmente sobre como aproveitar a situação para iniciar um treinamento que dure a vida inteira, não algo paliativo. 

Nós somos como uma pessoa que deseja ir a Barcelona, mas não pesquisa passagens, não sabe onde ficar, não conversa com quem já foi… Se alguém pergunta como chegará a Barcelona, ela diz: “To tentando!” Isso é pensamento mágico. Do mesmo modo, sempre que alguém disser “To aprendendo a lidar com minha raiva”, a grande pergunta que precisamos fazer é: como? Exatamente de que modo você está fazendo isso? Qual o método?

Ler e assistir a palestras são métodos pelos quais cultivamos um corpo torto na cadeira e uma mente que se entretém com novos conteúdos. Ler não é um método que libera o ciúme na raiz, mesmo quando lemos sobre o ciúme, por exemplo. Passar de novo e de novo por situações aflitivas também não funciona como um método eficaz. A prática de sentar imóvel, soltar a fixação às histórias, relaxar as tensões mais sutis e depois investigar a natureza das perturbações olhando diretamente para seu surgimento interno, sim, com certeza, tal habilidade será muito útil em meio a uma crise.

Ilustração da Valentina Fraiz

A gente já teve dezenas de boas ideias, mas não foi suficiente para transformar a mente. Temos a crença de que vamos a algum lugar apenas pensando, conversando, trocando de conteúdos e narrativas. Nossa aposta na supremacia da mente discursiva nos leva a ignorar as camadas sutis onde a vida acontece: nós emocionais, desequilíbrios de ânimo, flutuações de energia, tensões, bolhas, qualidades e inteligências do coração. Porque mal olhamos para a sujeira de nosso mundo interno, somos reféns do autoengano (“Já sou espiritualizado…”), temos baixa imunidade contra picaretas autoajuda e compramos mais e mais livros, técnicas e cursos isolados, que nos dão a sensação ilusória de que estamos avançando. 

Nossa cultura teórica é produto de seres presos na cabeça, desincorporados, cheios de conceitos. Desconfio de qualquer transformação que não passe pela investigação em primeira pessoa do corpo e da mente, pelo contato direto com o sofrimento e por todos os cantos da vida cotidiana. A gente já entendeu, agora é hora de praticar. Como já ensinou o grande escritor argentino Jorge Luis Borges, “Tudo está dito: falta aposta.”

Texto publicado originalmente na revista Vida Simples em fevereiro de 2016 (ed. 167).

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