iluminação
Arte: Niko Lator

A gente não sofre de estar mal. A gente sofre de estar mal e não visualizar a possibilidade da liberação. Afinal, ninguém se mata porque está gripado. A grande descoberta do Buda, há 2500 anos, não foi a primeira nobre verdade (toda felicidade condicionada vira sofrimento), mas a terceira: a possibilidade da liberação irreversível do sofrimento.

“Buddha” em sânscrito, “sangye” em tibetano, significa “desperto” ou “iluminado”: tanto a purificação de obscurecimentos e aflições quanto o desabrochar completo de nossas qualidades. Buda não é uma pessoa, mas quem qualquer pessoa pode se tornar: lúcida, generosa, benéfica, serena. Tal iluminação começa quando sentamos em silêncio e ficamos íntimos de nossa maior herança: uma mente livre. Como diz Lama Padma Samten, nossa natureza não é aprisionável. Dzigar Kongtrul Rinpoche completa: por ser uma questão de reconhecer o que já está presente, todos os seres ao nosso redor eventualmente serão budas. Não é maravilhoso?

A liberação é possível porque as prisões são linhas imaginárias e o sofrimento é autoimposto, então podemos parar — especialmente se tomarmos a humanidade como um todo e olharmos a quantidade de estruturas de violência e desigualdade que nós mesmos construímos para nos matarmos uns aos outros (Arte: John Dykstra)
A liberação é possível porque as prisões são linhas imaginárias e o sofrimento é autoimposto, então podemos parar — especialmente se tomarmos a humanidade como um todo e olharmos a quantidade de estruturas de violência e desigualdade que nós mesmos construímos para nos matarmos uns aos outros (Arte: John Dykstra)

Ainda assim, nossa cultura é niilista. Só visualizamos a vida um pouco menos sofrida com uma versão melhorada de nós mesmos. Ao dizer “Quando acabar seu retiro, vem tomar uma cerveja!”, nosso amigo está sussurrando: por mais que você medite, a vida é isso, no máximo a gente vai tirar férias… Junto com a desistência, surge um cinismo: alguns olham seres como o arcebispo sul-africano Desmond Tutu e não acreditam que aquilo seja bondade pura.

Experimente falar “A liberação é possível” depois de contar uma história complicada. Qualquer rigidez balança diante dessa afirmação arrebatadora. Tudo bem ter raiva, apego, ansiedade, carência, pois tudo pode ser liberado. Não tem notícia mais feliz! Nós deveríamos sair pelados pelas ruas gritando “A liberação é possível!”. Todo mundo quer receber essa notícia.

Para sair por aí dando essa notícia com os olhos, precisamos de mais intimidade com aquilo que a torna possível: a insubstancialidade das experiências, que nunca se consolidam, assim como um reflexo não se fixa no espelho. Compaixão precisa de sabedoria: eu me aproximo da confusão com a saída no horizonte. Mesmo sem soltar uma mágoa profunda, diante da terceira nobre verdade, ela praticamente já está pacificada, é uma questão de tempo. Essa é a origem da confiança no caminho. Por que a gente não para o carro na neblina e se desespera? Porque a gente sabe que a estrada segue. Eu só não estou vendo, mas eu ando um pouquinho e aquilo abre. Confio que a estrada está lá, perfeita, e uma hora acabo vendo. Assim, todas as situações se tornam atravessáveis.

Isso já vale ter vivido até aqui: descobrir que a liberação é possível e que há um caminho. Se a alegria dessa descoberta não for a maior das alegrias que a pessoa já teve, ela ainda não entendeu o que isso significa.

céu
Há sempre um céu acima — e a luz entra assim que abrimos qualquer fresta (Arte: KangHee Kim)

Como você vai atingir a liberação?

Essa é a pergunta que Elizabeth Mattis-Namgyel faz na última linha do penúltimo capítulo de O poder de uma pergunta aberta. Vamos estudar esse capítulo daqui a algumas semanas. Se quiser participar, você pode pegar o estudo no meio, sem problema algum, e depois rever os vídeos dos encontros passados: olugar.org O livro inteiro é sobre o que torna possível a liberação: a natureza aberta da mente e da realidade.