Depois do alívio de ter o mínimo para sobreviver (renda, moradia, comida, saúde e educação), nossa mente continua perturbada. O outro fez isso, aquilo aconteceu… Nós realmente sofremos de causas externas?

“Quando o amor comeu o meu dia e a minha noite”, 2018 | Arte em crochê da querida Karen DoloreZ

Recentemente uma jovem perguntou a Sua Santidade o Dalai Lama: “Como lidar com pensamentos negativos e emoções destrutivas?” A resposta durou um minuto, mas é uma instrução de prática para a vida toda. Sua Santidade disse que as aflições tem duas causas. A primeira é a atitude autocentrada. O autointeresse — de pessoas, empresas, partidos políticos, países — está por trás de todos os problemas: degradação ambiental, desigualdade social, radicalismo político, crescimentismo, consumismo, violência, preconceito… O Dr. Larry Scherwitz, pesquisador de medicina comportamental, gravou conversas com pacientes e notou que as palavras “eu”, “meu”, minha” e “mim” surgiam excessivamente na fala de quem mais tinha risco de desenvolver doença cardíaca — pressão alta, estresse, hostilidade, depressão e ansiedade são potencializados pela fixação ao eu. Do nível planetário ao nível celular, o autocentramento é um veneno.

A segunda causa do sofrimento é uma visão enganada sobre a realidade. Para poluir um rio, você precisa acreditar que ele existe lá fora, separado de você. Para odiar alguém, você precisa congelá-lo em uma imagem, ignorando sua multidimensionalidade. Antes do ciúme, há a alucinação de que o outro é seu. Antes da baixa autoestima, o desconhecimento dos tesouros de nossa mente.

Do autocentramento e da ignorância derivam todas as aflições mentais (kleshas, em sânscrito), como apego e raiva. Sem kleshas, mesmo mil pessoas complicadas não conseguiriam nos perturbar. Com kleshas, nós não precisamos de ninguém: damos conta de sofrer sozinhos!

O cultivo da compaixão é o antídoto para o autocentramento, enquanto as práticas de sabedoria dissipam a delusão. No caso de sofrimentos intensos, precisamos encontrar exemplos elevados, caso contrário vamos continuar achando que a causa do sofrimento é externa. Uma dessas histórias é a de Khenpo Munsel, um grande mestre tibetano que passou 22 anos preso em um campo de concentração na China, sob condições inimagináveis de fome, frio e escravidão. Ele transformou a experiência em prática espiritual, deu instruções a seus parceiros e muitos guardas chineses até viraram seus alunos! Quando o inferno acabou, ele voltou com a saúde ainda melhor do que antes e seguiu ensinando, como se nada tivesse acontecido, sem sintoma de estresse pós-traumático.

Que todos possamos encontrar um caminho que leve a tamanha sabedoria e compaixão ainda nessa vida!

Resposta de Sua Santidade o Dalai Lama (sem legenda por enquanto)

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