Quando ameaçados ou machucados, todos os animais recorrem a uma ‘biblioteca’ de respostas possíveis. Nós nos orientamos, nos esquivamos, nos escondemos, endurecemos, aguentamos, nos retraímos, lutamos, voamos, congelamos, colapsamos… É quando essas respostas de orientação e defesa se esgotam que vemos o trauma.
—Peter Levine

Uma das formas de você observar o efeito de se fixar a coisas como sendo reais é por meio da contração física, emocional e conceitual. A contração, por si só, não é necessariamente um problema. O coração, por exemplo, precisa contrair-se para bombear sangue, e nós precisamos de materiais que condensem e enrijeçam, como o cimento, para construir fundações firmes. Quando nós respiramos, se nossos diafragmas não se contraíssem durante a exalação, como eles poderiam expandir quando precisássemos inalar? Poderíamos definir contração como o estreitamento das fronteiras, a condensação de substâncias energéticas ou materiais, ou o congelamento ou adensamento de elementos conscientes em ideias e crenças. Nós contraímos quando recuamos ou nos retiramos das relações.

Todas as criaturas conscientes se contraem quando se sentem ameaçadas ou com medo. Uma tartaruga instintivamente se retira para dentro de seu casco por alguma razão. A contração tem um propósito escudeiro e protetor na natureza, mas, como um modo de estar na vida, a contração pode ser um obstáculo à nossa conexão com o mundo que nos cerca. De tal modo que poderíamos dizer que a contração nos faz andar na direção oposta ao insight liberador de pratityasamutpada [surgimento dependente].

Muitos de nós vivemos em um estado de contração a maior parte do tempo. Claro, uma vez que as coisas se apoiam umas nas outras, ninguém consegue se retirar da atividade da interdependência, mas podemos – e com frequência o fazemos – nos proteger contra a vida. A energia dinâmica do nosso mundo segue se movendo, nos oferecendo respostas, nos chacoalhando para afrouxar nossos parafusos, e nossa resposta é continuamente apertá-los. Cansativo, não é?

Nós chamamos essa experiência de ansiedade e tensão física e energética de estresse. Contraímos quando a quantidade esmagadora de estresse nos atordoa, nos levando à inatividade ou reatividade, e isso nos impede de olhar para além das tensas fronteiras de nossos pensamentos e emoções. Há momentos em que tudo ao nosso redor parece hostil e pouco amigável, e os menores e mais insignificantes eventos parecem enormes e impossíveis, fazendo-nos sentir pequenos demais para nossa a vida. A contração que surge pode restringir nossa perspectiva de tal modo que nós literalmente nos retiramos da possibilidade de participar e de sentir nosso mundo.

Talvez você tenha notado que possui maneiras sutis de recuar da vida. Pode ser que isso se mostre como um sentimento de indiferença em relação a tudo que se passa ao seu redor, de tal modo que, no final de cada dia, parece que nada mudou, como se sua vida não tivesse tocado você. Quem sabe você se deixa levar por uma necessidade urgente de distração, se perca no vício em alguma substância ou mesmo no vício em ver televisão. Em alguns momentos, talvez você colapse em um estado congelado e imobilizado de medo, ou tome para si a impossível responsabilidade de manter a vida emocional de todo mundo em harmonia, ou desenvolva padrões narcisistas que a mantêm refém de seu próprio drama diário. Submersa em suas próprias realidades míopes, você pode passar a vida inteira achando que elas são verdadeiras.

Trauma é uma palavra forte que nós normalmente associamos a sofrimento extremo. Mas o trauma pode ser capcioso e difícil de reconhecer. De fato, é de se duvidar que se passe pela vida sem algum trauma. Nós experimentamos trauma quando não conseguimos sair de uma situação ou relação perigosa ou doentia, quando ficamos perplexos diante de uma catástrofe inesperada, ou quando em nossa vulnerabilidade e inocência nós não temos a clareza e a força emocional necessárias para dar sentido ao que está acontecendo ao nosso redor.

Quando somos incapazes de ingerir e processar a experiência, desenvolvemos crenças sobre nós mesmos e sobre o mundo e as carregamos por toda a vida. Nós geralmente pensamos que crenças são ideias, mas, na verdade, mantemos crenças em nossos corpos emocionais, energéticos e físicos também. Nossa postura e o modo como vivemos espelham padrões inconscientes de confusão que se instalam a partir de verdades não avaliadas. E nós, por nosso lado, percebemos o mundo como o reflexo desses padrões, e isso os reforça e faz com que nos fixemos às histórias que surgem sobre eles.

Por exemplo, por causa de um trauma de infância, uma pessoa pode andar pela vida se perguntando desesperadamente: “Quem se importa comigo?”. Pode ser que ela continuamente se veja como tendo sido abandonada ou ignorada. Outra pessoa pode lutar contra a baixa autoestima e se sentir diminuída ou ineficaz, e se perguntar por que este mundo parece tão duro, por que suas relações a atormentam, ou por que seu trabalho é tão penoso. Quando estamos entrincheirados em nossa própria confusão, nós sequer questionamos a base dessas realidades ou, se o fazemos, costumamos achar difícil nos ver livres dela. Depois de um tempo, essas realidades começam a parecer a própria norma.

Eu trago tudo isso à tona porque, na tradição de prática do surgimento dependente, como você verá, questionaremos a certeza e a verdade de nossas crenças. Pode ser que pense que, no caso do trauma, questionar suas crenças seria como desprezar ou negar o trauma pelo qual você passou. Mas pergunte-se o seguinte: questionar crenças necessariamente reduz sua habilidade de resposta ao sofrimento? Esse questionamento impede você de se afastar de situações perigosas ou nocivas, ou implica que você deveria virar as costas para a doença, a violência ou o abuso? Seres humanos sobrevivem a sofrimentos inimagináveis. Todo mundo tem uma história. Eu sempre fico abismada quando vejo o que as pessoas enfrentam e quão resilientes elas podem ser.

Mas há momentos em que você talvez se pergunte se apenas sobreviver é suficiente e, se não for, o que pode fazer a respeito. Se quer emergir da confusão, você terá de explorar as suposições profundamente enraizadas que tem a respeito de sua mente. Você precisará identificar suas crenças, questioná-las e ver como elas a carregam. E ainda que considere estar muito certa sobre você mesma, suas relações e os acontecimentos de sua vida – mesmo que uma multidão concorde que você está equivocada –, você terá inevitavelmente de avaliar a verdade e a realidade de suas histórias e ver o quanto elas lhe servem ou não.

Em certo sentido, explorar suas crenças pode ser comparado a se aventurar fora da segurança de sua casa e ver como o mundo funciona. Talvez você precise se distanciar do que é familiar para poder se abrir para uma descoberta mais ampla. Quando você começa a flertar com a ideia de que talvez haja vida fora de sua história, talvez tenha o liberador insight de que não importa quão empacada você se sinta e quão sombrias as coisas pareçam, a fixação sequer é uma possibilidade em um mundo cuja única característica confiável é o movimento e a mudança. De fato, quando você para um pouco e olha mais atentamente para as coisas, pode descobrir que todas essas crenças que parecem assombrar você e causar tanta tristeza na verdade compartilham uma qualidade espetacular e redentora: elas não são verdadeiras. Em outras palavras, você não está condenada.

Trecho do livro A lógica da fé, de Elizabeth Mattis Namgyel, com tradução de Lia Beltrão, publicado pela editora Lúcida Letra.

Elizabeth Mattis-Namgyel está há 35 anos imersa no caminho budista, sob orientação de Dzigar Kongtrul Rinpoche. Com formação em Antropologia, seu aprendizado está ancorado na prática, tendo completado sete anos de retiro solitário. Elizabeth tem especial conexão com o aspecto de sabedoria dos ensinamentos — originação dependente e vacuidade. Como professora budista, oferece palestras e retiros nos Estados Unidos, na Austrália, na Europa e recentemente no Brasil também.

Grupo de estudo online sobre interdependência

Do colapso ambiental à desigualdade social, do racismo ao negacionismo, todos os nossos problemas atuais surgem de ignorarmos a realidade da interdependência. Esse é o tema, ainda mais em nosso tempo. E é raro encontrar um livro apenas sobre isso — com práticas!

Nos últimos três anos, com mais de 900 pessoas de todo canto do Brasil e do mundo, estudamos juntos os livros Um coração sem medo (Thupten Jinpa), O poder de uma pergunta aberta (da própria Elizabeth Mattis-Namgyel) e Quando tudo se desfaz (Pema Chödrön).

Dessa vez, vamos nos debruçar por 14 semanas em um livro que integra e aprofunda tudo o que exploramos nesses estudos anuais: A lógica da fé, de Elizabeth Mattis-Namgyel. Começaremos em agosto, dentro da nossa comunidade online!

Se quiser participar, todas as informações estão aqui: olugar.org/fe