Como podemos mudar o mundo? – Dzogchen Ponlop Rinpoche

por Geovana Colzani

Dzogchen Ponlop Rinpoche

Poderíamos dizer que quase todos os movimentos sociais ou políticos começaram com uma boa motivação. Você sabe, o capitalismo ou o que quer que seja. Mas algumas vezes nossa intenção para começar um movimento, ou ser ativo numa certa área, dá errado — nos deixamos levar. E então nos tornamos parte do status quo. Podemos nos tornar parte da instituição problemática que estamos tentando mudar. Quando isso acontece, as pessoas dos dois lados de um problema se tornam praticamente iguais, igualmente impacientes e agressivas, mesmo que estejam falando mensagens diferentes.

Nós podemos ter rótulos e slogans diferentes para o que estamos fazendo, mas quando nos tornamos muito agressivos e impacientes, na verdade, estamos nos tornando parte do status quo. Em vez de ajudar a desenvolver uma solução, nos tornamos parte do problema.

Como podemos nos engajar na política ou no ativismo social sem ficarmos presos na agressão? Ativismo político e movimentos sociais nem sempre precisam acabar em agressão e constante discordância impaciente. Realmente não precisa ser assim. Nós precisamos apenas nos manter próximos da motivação original.

Nós podemos lembrar de quando começamos a trabalhar por uma boa causa. Talvez tenha sido na garagem de alguém, em volta de uma fogueira ou algo assim. No início colocamos tanto coração, entusiasmo e amor. Existe esse desejo genuíno de mudar algo para melhor, e um sentido muito real de querer fazer parte e fazer acontecer.

Mas depois aquilo se torna um trabalho, e você perde o foco. Em vez de lembrar porque você começou este projeto todo, em vez de se mover em frente com motivação genuína, você está apenas tentando agradar alguém — seu eleitorado, seu chefe, sua organização sem fins lucrativos. E então a coisa toda perde o coração inicial de curiosidade e entusiasmo, as qualidades que poderiam levar a descobrir como tornar as coisas melhores.

Ao mesmo tempo, precisamos manter nosso senso de perspectiva.

Sempre me lembro desta afirmação do 16º Karmapa. Foi no auge da corrida armamentista nuclear, durante a Guerra Fria, e naquela época alguém lhe perguntou: “Para onde vai o mundo? A qualquer momento pode haver um ataque nuclear da Rússia contra os EUA, ou dos EUA contra a Rússia! ”. Eles disseram: “Este é o pior momento da história”, e assim por diante.

E quando o tradutor terminou de traduzir a questão, o 16º Karmapa caiu na gargalhada e disse, “O mundo sempre foi assim.”

Então eu sempre tento me lembrar disso. Não é que devemos tentar negar tudo o que está acontecendo agora. Mas devemos lembrar também que o mundo já passou por uma situação semelhante muitas vezes, e que em algumas vezes pode ter sido muito pior, como durante a Segunda Guerra Mundial ou outros tipos de desastres.

Existe alguma verdade sobre nossas lutas, nossos desafios e as mudanças que encontramos. A cada nova administração do governo dos Estados Unidos, nós passamos por isso. Há algum tempo, pensamos que era o pior de todos. E algumas pessoas pensaram que os últimos oito anos foram os piores de todos. Isso está sempre mudando e continuamos pensando: “Isso é realmente o pior.”

Como manter a calma em meio a distúrbios políticos

Para fazer a diferença no mundo, no entanto, temos que ficar calmos. Precisamos ver que, seja à direita ou à esquerda, muita coisa é dita. Pode ser muito perturbador tentar ouvir tudo o que está sendo falado.

É o mesmo com a nossa família, não é? Se você ouvir tudo o que todos dizem sobre nossa família — dentro da família, fora da família, todos falando da sua mãe, da mãe dele, e esse e aquele irmão e irmã — nos deixa loucos, sabe? Totalmente malucos. É pior do que a agitação em nosso país porque é muito perto de casa. No mesmo caminho, acho que é muito importante não assistirmos ao noticiário 24 horas e não ver tudo o que está nas redes sociais o tempo todo. Isso não ajuda.

Você pode ver todas as notícias que realmente precisa, em quatro minutos. Mas as outras 23 horas e 56 minutos de notícias é como ouvir os membros da nossa família falar uns sobre os outros. Você ouve sua mãe falar sobre sua irmã, você ouve a sua irmã falar sobre sua mãe, e então os irmãos e tios, sobrinhos e primos falando. E no final, você nem sabe o que está acontecendo com a sua mãe. Você pensa, “Eu realmente conheço minha mãe?” ou “Eles estão mesmo falando da minha mãe?”, pode ser bastante confuso.

Imagem de @psan5630

Precisamos nos equilibrar, antes que possamos equilibrar o país ou o mundo. Se não formos equilibrados, definitivamente não podemos ajudar os outros a encontrar o equilíbrio. Precisamos encontrar nosso próprio centro, ficar de pé com cabeça e ombros juntos, de uma forma equilibrada.

Se fizermos isso, então podemos começar a descobrir formas para que todos nós possamos contribuir e mudar o mundo, tornar o mundo um lugar melhor para viver, para todas as criaturas.

Encontrando equilíbrio interior, educando o coração

Temos muitas ferramentas muito poderosas, como a internet, por meio das quais podemos organizar um movimento popular positivo por meio da educação. Se vamos encontrar o equilíbrio, acho que trabalhar com a mente é a coisa mais benéfica para todos. Por meio da educação, começamos a reconhecer a grande importância do equilíbrio interior e, uma vez que o encontramos, podemos começar a trazer equilíbrio ao mundo exterior.

A boa notícia é que podemos aprender como não ser desequilibrados por todas as diferentes coisas que acontecem ao nosso redor. Existem tantas ferramentas que podemos usar para trabalhar com nossa mente, para trabalhar com nossa frustração, raiva, ego e todos os estados perturbadores que nos causam problemas.

Podemos usar essas ferramentas para nos ajudar a ver com maior sabedoria e clareza. Depois de desenvolvermos essa habilidade, podemos usar essas ferramentas para ajudar outras pessoas a mudar sua percepção de maneira positiva. E se pudermos aumentar a conscientização em suas mentes, se pudermos levar a educação aos seus corações, por meio do uso sábio e criativo da internet e de outras ferramentas que temos disponíveis, o mundo mudará.

Imagem de Nikola Miljkovic

Essas mudanças ocorrerão uma a uma, é claro, não todas de uma vez. Em muitas situações políticas hoje, você pode ver como as coisas mudaram na velocidade da luz e pode parecer difícil acompanhar tudo o que está acontecendo. Mas há muito poder na comunicação, em trazer o que você deseja compartilhar com os outros.

Podemos nos lembrar de quanto poder existe em nossa motivação genuína e em nosso coração de bondade. Quando nos comunicamos com um senso de centralização e equilíbrio, com amor genuíno, com um senso de generosidade e alegria em oferecer, então não estamos apenas tentando mudar a mente de alguém. Em vez disso, quando compartilhamos, estamos abrindo o espaço para que outros façam suas próprias escolhas sobre o que estamos dizendo.

Dicas para mudar o mundo: um exercício

Para qualquer mudança que você deseja fazer no mundo, é importante manter uma intenção clara e um senso de equilíbrio. À medida que nos engajamos em uma mudança positiva, podemos recuar de vez em quando para ganhar perspectiva.

1. Lembre da sua motivação original, entusiasmo e curiosidade. O que você estava sentindo quando você decidiu ajudar nessa mudança?  O que te deixou animado com isso? O que você deseja realizar?

2. Esteja ciente da tendência a exagerar. Você já exagerou um problema ou o papel de alguém naquele problema? Quando você olha de forma mais objetiva para a situação que deseja melhorar, o que você vê?

3. Trabalhe em direção da positividade, para que não fique preso em pensamentos negativos. Qual é a sua motivação positiva para engajar nessa causa? Por que você provavelmente alcançará esse resultado positivo?

4. Mantenha um senso de perspectiva sobre a situação mundial. Sabendo que grandes desafios surgiram ao longo da história, como você pode trazer um senso de perspectiva para a situação que gostaria de mudar?

5. Não escute tudo no noticiário — 4 minutos por dia é o suficiente. Isso é algo que você já faz? Se não, você gostaria de tentar limitar as notícias que escuta a quatro minutos por dia? Você poderia tentar por um dia ou uma semana como um experimento.

6. Encontre o equilíbrio interno antes de tentar equilíbrio externo para o mundo. O que você faz para manter seu equilíbrio interno? Como você cuida de si mesmo — com exercício, meditação ou alguma prática criativa? Como o senso de equilíbrio interno te ajuda? O que acontece quando você perde contato com isso?

7. Use ferramentas de comunicação de maneira positiva. Reduza a reatividade e espalhe sabedoria. Você acha que às vezes pode ser um desafio usar o e-mail e as mídias sociais de maneira positiva?  O que você faz para reduzir a reatividade e espalhar sabedoria?

Os ensinamentos apresentados aqui foram oferecidos originalmente por Dzogchen Ponlop Rinpoche em Seattle, Washington e Taipei em 2016, e em San Antonio, Texas em 2018. Você pode ver um trecho desta fala de 2016 em inglês aqui.