Somos seres de conexão. Mas estamos enganados: acreditamos que felicidade é se conectar com algo ou alguém específico, então passamos muito tempo procurando por pessoas, lugares, objetos, trabalhos que amamos. No entanto, felicidade é ser capaz de se conectar, não importa com o quê, não importa com quem, pode até ser com nosso sofrimento ou com alguém que nos fez mal. Em vez de buscar se conectar com isso ou aquilo, melhor aprofundar nossa capacidade de conexão.

Jeong Kwan, monja budista e uma das maiores cozinheiras do mundo (templo Baekyangsa, Coreia do Sul)
Jeong Kwan, monja budista e uma das maiores cozinheiras do mundo (templo Baekyangsa, Coreia do Sul)

Se tem conexão, a pessoa fica feliz só de estar rodeada de ar, só com terra sob os pés (ou pelo menos ouvimos isso de mestres como Thich Nhat Hanh e Jetsunma Tenzin Palmo). A felicidade é a própria conexão — e por isso não é nunca isolada, pessoal ou passiva. Tal mente é a melhor fonte para ativismos e revoluções, pois naturalmente inclui seres e fenômenos em todas as direções.

O professor budista Tenzin Wangyal Rinpoche, em um ensinamento em São Paulo, disse que adoecemos sempre que perdemos a conexão: com nosso corpo, com nossa respiração, com nossa mente, com as tarefas cotidianas, com a natureza, com a comunidade, com linhagens de sabedoria, com a dor e também com as qualidades sutis do silêncio, do espaço, do calor interno, da alegria… O sofrimento não vem de outro lugar, ele é a própria desconexão!

Se deixarmos que o outro defina qual será a nossa conexão, vamos oscilar de acordo com seus movimentos, às vezes nos desconectando, perdendo o interesse, nos magoando e endurecendo. Porém, se mantivermos uma conexão unilateral, autônoma, silenciosa, o outro acaba perdendo o poder de causar sofrimento. Precisamos experimentar, mas parece que o único modo de manter uma conexão potente e estável com todo mundo é por compaixão, amor, alegria e equanimidade.

Os animais, as folhas, a água, o vento, os sons do mundo, as pessoas e seus problemas… a vida inteira é um constante convite para que a gente se abra (tsewa é uma das palavras tibetanas para coração aberto). O professor indiano Dzigar Kongtrul Rinpoche costuma dizer que se fechamos o peito em uma situação difícil, isso é escolha nossa, caso contrário ninguém seria capaz de perdoar e transcender histórias que nunca chegaram a se resolver. Uma vez ouvi de lama Padma Samten: tudo bem chorar e se indignar com uma tragédia, apenas não entristeça seu coração.

Sabe aquele acolhimento que estamos esperando receber de alguém? Talvez ele só apareça quando nós mesmos o oferecermos aos outros. Não é que vamos dar e depois receber. A abertura para oferecer é o próprio receber. Como também ouvi do lama Padma Samten, o amor em si mesmo já é a recompensa de amar — desejar a felicidade para alguém é inseparável de experimentá-la em nós mesmos.

Leia Um coração sem medo, de Thupten Jinpa.

Publicado originalmente na coluna “Quarta pessoa” da revista Vida Simples (ed. 182, abril 2017).

As gravações dos encontros do grupo de estudos que fizemos do livro “Um coração sem medo” e do Intensivo Conexão ficam disponíveis aos participantes do lugar. Se quiser experimentar práticas para transformar suas relações, aqui está nosso convite: olugar.org