Nós não somos alguém fora dos processos de relação. Se nós tivéssemos relações, onde elas estariam? Tampouco faz sentido dizer que eu me relaciono com vários seres, objetos, lugares e situações, pois há algum “eu” separado que fica se relacionando aqui e ali?

Nós não temos relações. Nós somos relações. Nós nascemos das relações. Cada ser não é um ser. Cada ser são infinitos processos de relação. Para mudar uma pessoa, mude a matriz de relações onde ela está emergindo. No nível grosseiro, isso significa mudar a rede, a cultura, a comunidade. No nível sutil, isso significa mudar a nossa própria mente. Toda vez que você aprisiona alguém (“ela é contra mim…”, “ele é quem fez tal coisa…”), você se torna a prisão. Botou alguém numa cela estreita, fria e fedorenta? Você virou isso. Você anda com isso por aí, você senta com isso em meditação. É um inferno! Enquanto mantiver lugares internos de contração, não só vai encontrar seres aparentemente perturbadores, como você mesmo vai surgir como um ser perturbado e perturbador.

não temos relações
Desenho de Daniel Gisé com base nessa descoberta: “Ao prender os outros, eu me torno a prisão.”

A boa notícia é que podemos escolher qual olhar oferecer — parece que não, mas sempre temos escolha. Quando desejo “Que a Ana seja feliz, que atinja a iluminação completa ainda nessa vida!”, estou relaxando algo em mim que se contraiu diante dela. Em vez de dar uma cela, dou o maior dos desejos, dou um espaço infinito! Assim, quando a imagem dela surgir na meditação, em vez de me estreitar por apego ou aversão, agora ela expande a compaixão.

Em algum momento vamos perceber: “Eu tô fugindo, tô criticando, tô com medo de algo que não existe!” Às vezes o outro está lá dormindo ou apenas passando sabonete na perna no exato momento em que eu estou aqui achando que ele é um demônio que me odeia 100% do tempo. Ele não é aquele ser — estou me relacionando com um fantasma! Quando você ouvir uma fofoca, experimente perguntar: “A quem exatamente você está se referindo?”

Em vez de achar algo problemático e então tentar resolver, o jeito mais direto de pacificar uma relação é repousar na mente que sempre esteve livre dos jogos e descobrir que o outro também tem essa região livre. Só de repousar aí você já começa a se relacionar a partir dessa base descomplicada. Mesmo se o outro demorar anos para reconhecê-la, você já está reconhecendo.

Para ser feliz, como nasço constantemente dos outros, preciso criar um mundo no qual todos os seres sejam felizes. Se construo uma casa só para mim, vou viver em uma casa pequena. Se construo uma casa para abarcar todo mundo, eu mesmo vou viver nesse palácio. É isso que o treinamento da compaixão vai fazer com a nossa mente. Leiam Um coração sem medo, de Thupten Jinpa.

Quer colocar isso em prática?

Oferecemos várias sugestões bem detalhadas para transformar as relações. Focamos em cada uma delas de modo coletivo, toda semana, gerando materiais de apoio.

Algumas das práticas: “Fazer um caderno de seres”, “Praticar compaixão ao ver as notícias”, “Manter contato diário com o sofrimento”, “Sentar com todos os seres”, “Sonhar a si mesma”, “Andar na rua e focar em cada rosto”, “Presentear uma estranha”, “Converter micro contatos em relações”, “Apreciar a riqueza de sua condição atual”, “Alegrar-se com a alegria dos outros”…

Se quiser participar: olugar.org