Cena do curta Le ballon rouge (1956)

Quando você percebe que não vai dar conta. Quando você percebe que tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, muitas tarefas para uma só semana, muitas portas abertas, muitos entraves aparentemente intransponíveis, muitos problemas envolvendo todas as estruturas sociais, muitos movimentos em diferentes âmbitos e escalas (sendo que você poderia passar uma vida inteira apoiando cada um deles).

Quando você percebe que mencionou outros continentes, comunidades inteiras, grandes mestres espirituais e até seres sem nome que ainda não nasceram ao fazer uma simples reunião de trabalho para conciliar três agendas pessoais nos próximos meses. Quando tudo se expande mais do que o esperado, até mesmo você. Quando cada email que chega em sua conta é direcionado a pessoas diferentes, de mundos diferentes, com inteligências diferentes, com linhas do tempo diferentes, ainda que todos comecem com o seu nome.

Quando percebe que não vai dar conta, você pode reagir em dois extremos: se achar pra cima (como se você fosse maior, com o poder de orquestrar tantos movimentos) e se achar pra baixo (como se você não tivesse espaço suficiente para presenciar tantos movimentos). Ambos os extremos vem de focar demais em nós mesmos. Orgulho e desespero são contrações do autointeresse, pensamentos desnecessários que adicionamos à realidade.

Aquilo que nos tensiona é justamente aquilo que pode nos abrir. É como soprar uma bexiga: o ar que estica a pele é o mesmo ar que estoura a bexiga. Mas isso só acontece quando vamos em direção a não mais dar conta (não evitando, não contendo, não moderando), tanto é que para esvaziar uma bexiga de modo que ela nunca mais se encha, o método não é esvaziar, mas encher até estourar. Se tentamos fugir, o mero fluir do relógio da vida cotidiana parece nos perseguir, nos oprimir, nos castigar, nos esmagar, nos soterrar.

Esse não mais dar conta não precisa ser uma sobrecarga de estímulos hedônicos, tarefas, ocupações, distrações, fugas, entorpecimentos. Esse não mais dar conta pode ser uma conexão com a realidade complexa da vida: uma mistura inconcebível de sofrimento com lucidez, ambos incomensuráveis. É um simples reconhecimento de que a vida não se contém. É um relaxamento: não temos como dar conta — e nem precisamos!

Nós não somos esse que nunca dá conta, somos isso que parece nos demandar de um lado para o outro, somos isso que parece nos esticar, não somos bexiga, somos ar.

A expressão que primeiro usamos para falar da tensão, da frustração, do estresse, da sobrecarga — “Não consigo dar conta!” — é a mesma expressão que podemos usar para nos alegrar com tamanho alívio!

Convite para grupo de práticas e estudos online

“A vida não é algo que acontece para nós. Nós não conseguimos nos separar do fluxo constante de experiências que chamamos de “nossa vida”. Não somos vítimas da nossa vida, e nem somos não merecedores dela. A vida não é bela ou divina demais para nós. Ela não é grande demais, ou dolorosa ou assustadora ou mesmo complicada demais para nós, ainda que algumas vezes pareça ser. Nosso desafio, enquanto seres humanos, é nos tornarmos suficientemente grandes para acomodar tudo isso.”

— Elizabeth Mattis Namgyel

Em 2019 passamos três meses explorando a outra face da compaixão: a visão de sabedoria além de extremos, bolhas e fixações. E experimentamos várias práticas de investigação direta da mente, das relações e dos fenômenos em geral. Nosso livro de apoio foi O poder de uma pergunta aberta, de Elizabeth Mattis-Namgyel.

Todo o estudo ficou gravado, com materiais de apoio e práticas guiadas, e segue disponível para os participantes do lugar. Se quiser assistir ao estudo no seu tempo, basta entrar no lugar: olugar.org