Nós temos muitas conversas apressadas, como se estivéssemos de passagem, indo para outro lugar. Nosso peito não fica 100% de frente para o coração do outro. Pode observar: sentimos que temos apenas alguns segundos para nos expressarmos antes de sermos interrompidos. Para sermos ouvidos de verdade, pagamos um terapeuta ou damos uma palestra.

Como não nos sentimos ouvidos, falamos ainda mais, até a nossa fala perder poder. Além disso, fazemos caras e bocas julgando uma notícia ou até mesmo as ações de um personagem num filme, o que impede os outros de abrirem suas loucuras, erros e angústias — se você deixou bem claro que trair é um absurdo, como é que sua amiga ou seu amigo vai contar que está iniciando um namoro em paralelo ao casamento?

Quando a gente é muito a gente mesmo, nós restringimos o espaço. E o melhor jeito de se aproximar de alguém é sendo espaço, não carregando toda a nossa tralha: o conjunto de dramas, preferências, impulsos, irritações, hábitos, opiniões e condicionamentos que chamamos de eu. Quanto mais você se torna espaço, mais você também se torna tempo. Você sente que tem todo o tempo do mundo, então você pode oferecer todo o tempo do mundo. Experimente ouvir alguém por duas, três horas… sentar na cadeira e morrer ali. No fim, mesmo que não fale quase nada, provavelmente o outro sairá pensando: “Nossa, que pessoa legal!”.

Não tente ser interessante, apenas se interesse. Uma pessoa não é interessante pelo que ela é, mas pelo espaço que ela dá aos outros. Em vez da atitude romântica de querer ser alguém especial para deixar uma marca na vida dos outros, poderíamos desejar viver sem deixar marcas e pegadas, apenas apoiando as vidas ao redor.

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Exibição de Hilary Lloyd no Artists Space, em Nova Iorque: como uma obra de arte, cada pessoa precisa de espaço

Quando você é espaço diante do outro, você funciona como uma sala bem ampla: quando alguém entra gritando, aquilo ecoa, a pessoa se ouve, ela mesma começa a falar baixo. O outro precisa se ouvir. É como o silêncio: quem já chegou atrasado a uma prática de meditação em grupo sabe a sensação de encontrar um ambiente genuinamente silencioso. Nossa agitação fica evidente, como se alguém tivesse aumentado o volume de nossos pensamentos. O silêncio nos apresenta a nós mesmos.

Nós somos espelhos sujos. Damos e recebemos pouco espaço uns aos outros. Nossos olhos poluídos acabam aprisionando os outros. Chegamos diante de nossos pais e temos espaço para ser filhos. Chegamos perto de nossos namorados e sentimos espaço para ser namorados. Ao encontrar nossos colegas de trabalho, damos espaço somente para que eles sejam colegas de trabalho. Ao encontrar estranhos na rua, abrimos espaço apenas para que eles sejam estranhos na rua.

Nas relações usuais, nós refletimos e somos refletidos como naqueles espelhos que distorcem e deformam tudo. É muito raro encontrar alguém que espelhe nossa natureza mais profunda, que nos apresente a nós mesmos livres de qualquer identidade ou limitação. Se encontrarmos, será inevitável colar nesses seres de sabedoria até que nós mesmos sejamos espelhos perfeitos.

Publicado originalmente na coluna “Quarta pessoa” da revista Vida Simples (ed. 175, setembro 2016).