Não vai dar certo
Cena de “Amour” (2012), escrito e dirigido por Michael Haneke

Ninguém nos avisa, todo mundo parece saber o que está fazendo, mas a realidade é que namorar é brincar com fogo.

Na próxima vez em que uma pessoa chegar dizendo “Oi, posso te fazer feliz?”, lembre-se que ela provavelmente só consegue manter a atenção focada por apenas 3 segundos (segundo William James) ou, no máximo, 8 segundos (de acordo com uma recente pesquisa com 2112 canadenses), antes de cair em torpor ou distração — leia A revolução da atenção, de Alan Wallace.

Lembre-se que ela está prestes a condicionar sua felicidade a você — ou seja, em breve você terá o misterioso poder de deixá-la mal apenas por se movimentar por aí, sem querer. Lembre-se que ela, assim como você, está autocentrada em bolhas, identidades, certezas sobre tudo — vocês terão dificuldade de entender e beneficiar um ao outro.

Sabendo disso, o primeiro sofrimento pode vir junto com uma espécie de alívio: o que mais esperavam? Ninguém errou, foi apenas o resultado inevitável dessa operação restrita. O problema não é se relacionar, o problema é se relacionar com essa mente perturbada — é isso que não tem como dar certo.

Lembro de uma frase perfeita que encontrei no Twitter de Dzogchen Ponlop Rinpoche (autor do livro Buda rebelde):

“Até agora temos colecionado muitas soluções, mas ainda não sabemos qual é o problema.”

— Dzogchen Ponlop Rinpoche

Deveríamos nos tornar cientistas do sofrimento humano. Sem isso, digamos que o problema pareça ser ausência de sexo: depois de cursos, livros e apetrechos, talvez eu resolva tanto essa questão que o problema vire excesso de sexo. Se acho que o problema é monogamia, vou me envolver em comunidades de poliamor, passar anos mudando visões e hábitos, até que novamente me depare com o ciúme. Podemos aprimorar um milhão de paliativos sem nunca transformar a mente. É como trocar de ansiolítico sem transformar a ansiedade. Mudar de casa levando o apego na mala.

O caos da convivência humana nunca vai se resolver, se harmonizar, se ajustar. Os fenômenos dançam sem estabilidade duradoura. Curiosamente, entoar o mantra “não… vai… dar… certo…” não conduz ao pessimismo ou à depressão (só se houver algum resquício de esperança no processo de resolver as condições externas), mas à possibilidade de relaxar em meio à incerteza. Se escolhermos ignorar tal realidade, seremos surpreendidos, de novo e de novo, quando as coisas desabarem, entoando outro mantra: “Isso não deveria ter acontecido!”

Desafio você a localizar um problema que não surja pela combinação de apenas três causas: energia condicionada, seriedade e autocentramento. Sofremos por falta de equilíbrio, sabedoria e compaixão. É só isso! Essa afirmação revolucionária não vem de mim, mas das mulheres e dos homens mais visionários que já andaram nessa terra. Se praticarmos uma mente menos reativa, com energia autônoma, sorrindo para qualquer aparência de solidez, se entrarmos nas relações com um coração amoroso e compassivo, tudo vai ficar bem, principalmente quando não ficar.

Publicado originalmente na coluna “Quarta pessoa” da revista Vida Simples (ed. 165, dezembro 2015).

Palestra “Não vai dar certo” no TEDxUFRJ

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