Cena de “Aquilo de que somos feito” (2000), espetáculo de Lia Rodrigues

No mês passado, vimos que o sofrimento não é causado pelos outros e pelas condições externas, mas por nossas próprias aflições mentais, originadas por ignorância e autocentramento. Enquanto não as liberamos pela raiz, com métodos que combinam sabedoria e compaixão, o que fazer quando a mente se perturba? O que fazer quando nos sentimos esmurrados por impulsos e agitações de todo tipo?

O professor Alan Wallace ensina um refúgio provisório:

“Vá para um lugar que as aflições mentais não conseguem penetrar. Entre em modo não conceitual.”

As perturbações cavalgam nos pensamentos: sem história, não há como sustentar um sofrimento. É impressionante como a maioria das pessoas passa o dia inteiro (a vida inteira!) sem um único momento de descanso fora da mente discursiva. Não há problema em usarmos conceitos, o problema é sermos aprisionados por nossas próprias construções, sem nunca descobrir a vastidão além do falatório interno.

Quando surgir uma aflição, “permaneça imóvel como um pedaço de madeira”, ensinou o grande monge e erudito indiano Shantideva. Para começar a ganhar liberdade do loop conceitual, experimente sentar em silêncio, deixar a coluna ereta e soltar qualquer pensamento de mover o corpo. Saia da sua cabeça e, como um submarino, mergulhe nesse campo não discursivo, naturalmente silencioso, no qual aparecem sensações táteis e flutuações de energia conectadas ao fluxo desobstruído da respiração. E fique aí, sem nada a ser feito, com o foco espalhado pelo corpo inteiro.

O campo somático não fala, as sensações táteis não se referem a outra coisa, a coxa não faz comentários. Pensamentos, preocupações, imagens mentais podem ir e vir, mas eles não chegam até o espaço do corpo. Quando repousamos assim por 15, 20, 40 minutos, nossa mente se deita na descomplicação do corpo. Ar entrando, ar saindo… E nada mais. A fonte dessa prática é Asanga (século IV), que enfatizava a prática de shamatha com foco no corpo inteiro de uma só vez.

Sinta os dedos da sua mão e pergunte: “Que dia do mês é hoje?”. O que eles respondem? O que o seu quadril acha dessa sua questão tão importante? O seu quadril é livre até mesmo do nome “quadril” — ele apenas está aí, tranquilo. Você não inspira “depois de uma semana difícil”, o ar apenas entra, fresco. Sinta como sua barriga é descomplicada. Se nos aproximarmos dos outros com tal naturalidade, isso por si só é tranquilizador. Podemos ser mais barriga na frente dos outros.

Nos próximos dias, ao encontrar um casal discutindo, ou um adulto brigando com uma criança, observe os pés de cada pessoa. Há toda uma complicação na fala, mas o que dizem os pés? Voltar à simplicidade do corpo é muito mais importante do que chegar em alguma conclusão discursiva. Temos muito a aprender com nossos pés.

Escola Livre de Dança da Maré encena “May B”, de Maguy Marin (com apoio de Lia Rodrigues). Foto: Sammi Landweer

Toda semana, experimentamos práticas como essa com pessoas de vários lugares do Brasil e de outros países. Se quiser participar: olugar.org