Dos antigos tratados filosóficos sobre a natureza humana às recentes pesquisas de antropologia e psicologia comportamental, sempre perguntamos se somos inerentemente bons e generosos ou maus e egoístas. Mesmo se houvesse consenso, uma resposta teórica não faria nem cócegas, não alteraria nossa experiência interna do mundo vivido, que é o que importa.

Se ouvimos biólogos (perspectiva em terceira pessoa) e psicanalistas (segunda pessoa), deveríamos ouvir também os inúmeros cientistas contemplativos que dedicaram 20, 30, 50 anos de investigação empírica com métodos precisos em primeira pessoa, usando a mente para pesquisar a mente. O que eles descobriram é revolucionário: todas as maldades são artificiais, construídas, e até mesmo o mais violento dos seres humanos pode, sim, erradicar completamente aflições e confusões, até se tornar veículo de inteligências benéficas. Todos os seres tem igual acesso a essa capacidade de florescer internamente — e há treinamentos para isso.

No entanto, como não reconhecemos em nós mesmos esse potencial de transformação, facilmente compramos visões por trás de programas de TV e notícias na internet: há pessoas boas e há pessoas essencialmente más, sem chance. Compramos também a ilusão de que o ciúme, a raiva, o orgulho, a inveja, o preconceito, tudo isso é humano e não pode ser superado pela raiz, apenas reduzido.

Estamos nos confundindo e nos identificando tanto com as negatividades, que silenciosamente desistimos de dispor de tempo e energia para mexer e eventualmente nos libertar daquilo, realmente nos emancipando internamente, atualizando nossa potência. Porque aceitamos que nosso ápice é apenas um sonho melhor, sequer desconfiamos da possibilidade de acordar.

Experimento me relacionar com pessoas em sofrimento do mesmo modo que converso com alguém fixado em um videogame: sigo convicto de que a qualquer momento, num estalar de dedos, no próximo segundo, a pessoa pode afrouxar, levantar os olhos e fazer outra coisa.

Quanto mais vivemos a partir dessa condição natural de liberdade, mais nos relacionamos com a pureza, a bondade do outro, mesmo nos casos em que ela está bem encoberta por estruturas e jogos aflitivos. Tal sabedoria é pré-requisito da compaixão. Apenas empatia não basta, é preciso algum nível de percepção direta da natureza mais profunda do outro. Sem isso, é como olhar a sujeira na louça e não conseguir imaginar aquilo tudo limpo.

Podemos nos aproximar de nossas aflições, de situações complicadas ou de uma pessoa supostamente irrecuperável com a mesma confiança inabalável que brota ao encararmos uma pia cheia de pratos imundos. Por mais vermelhas que estejam as taças de vinho, a sujeira nunca chega a se mesclar com o cristal. Nada realmente gruda em nós.

* Texto originalmente publicado na revista Vida Simples (novembro 2013). O exemplo da louça toma como base o ensinamento de Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche na página 42 de “Não é para a felicidade”.

A compaixão é mais ampla do que a empatia

“Sem o aporte do amor e da compaixão, a empatia entregue a ela mesma é como uma bomba elétrica na qual a água não circula mais: ela vai rapidamente superaquecer e queimar. A empatia deve portanto tomar lugar no espaço muito mais vasto do amor altruísta.”

— Matthieu Ricard

As nossas atitudes motivadas pela compaixão (aspiração de que o outro se libere do sofrimento) e pelo amor (aspiração de que o outro seja genuinamente feliz e que suas qualidades floresçam) incluem e transcendem as atitudes motivadas apenas por empatia.

É como se houvesse um caminho além dos extremos para os cuidadores (não só para quem trabalha ajudando as pessoas mais diretamente, mas num certo sentido para todos nós): em vez de alternar entre proximidade empática (que pode gerar perturbação, cansaço, frustração, estresse diante de tanto sofrimento) e distanciamento frio (como um mecanismo de defesa para seguir trabalhando), podemos aumentar nossa atitude compassiva de modo que surja energia e alegria e disposição e curiosidade ao lidar com os obstáculos dos outros, sem nunca perder de vista sua natureza livre.

Um sinal de que estamos agindo apenas com empatia sem muita compaixão é exatamente esse citado por Matthieu: surge fadiga, cansaço, frustração. E um sinal de que há cada vez mais compaixão é simples também: surge ação sem esforço, surge alegria, disposição, energia, satisfação com a própria ação, independente do resultado aparecer imediatamente. Nos movemos com paciência e com uma confiança inabalável de que aquilo pode ser superado, ainda que isso demore muito.

Leitura de aprofundamento

O biólogo, filósofo e cientista contemplativo (do instituto Mind and Life) Matthieu Ricard escreveu um livro de mais de 800 páginas sobre como nossa natureza mais profunda não é egoísta: A revolução do altruísmo.

Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche escreveu sobre esse processo no livro What makes you not a buddhist? (que aqui virou O que faz você ser budista?), páginas 125 a 128 na edição brasileira. E também na página 42 de Não é para a felicidade.

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