Ficamos encantados com esse texto da Roshi Joan Halifax publicado originalmente no site Lion’s Roar. A tradução é de Alessandra Granato e a revisão de Fábio Rodrigues.

Passei uma boa parte da minha vida me relacionando com situações que podem ser consideradas sem esperança — como ativista contra guerras, militante dos direitos civis, cuidadora de pessoas no processo de morte. Também fui voluntária em projetos com presidiários no corredor da morte, e servi em clínicas médicas em regiões remotas do Himalaia, onde a vida é dura, a comida é escassa e o acesso à saúde é nulo. Trabalhei em Catmandu com refugiados Rohingya, que não tem nenhum status em nenhum lugar. Você pode se perguntar, por que se importar? Por que manter esperança de acabar com a guerra ou a injustiça? Por que ter esperança em pessoas que estão morrendo, em refugiados escapando de genocídios ou em soluções para as mudanças climáticas?  

Por muito tempo, me senti incomodada com a noção de esperança. Porém, recentemente, em parte por causa do trabalho da crítica social Rebecca Solnit e do seu livro poderoso “Hope in the Dark” (“Esperança no Escuro”, sem tradução para o português), eu estou me abrindo para uma outra visão da esperança — o que eu chamo de esperança sábia.

Como budistas, sabemos que a esperança comum é baseada no desejo, em querer um resultado que pode ser bem diferente daquele que de fato acontecerá. Não conseguir algo que esperamos é normalmente experimentado como algum tipo de infortúnio. Alguém que se sente esperançoso nesses termos tem sempre uma expectativa que paira em segundo plano, e a sombra do medo de que os seus desejos não se realizem. Esta esperança comum é a expressão sutil do medo e uma forma de sofrimento.

Fotografia de Zhang Kechun

Esperança sábia não é enxergar as coisas de modo não-realista, mas ver as coisas como elas são, incluindo a verdade do sofrimento — tanto a sua existência quanto a nossa capacidade de transformá-lo. Esse tipo de esperança se torna vivo quando nós nos damos conta de que não sabemos o que vai acontecer. A espacialidade da incerteza é o próprio espaço que precisamos para agir. 

Com muita frequência, nos paralisamos pela crença de que não há nada a esperar – que o nosso diagnóstico de câncer é uma rua de mão única sem saída, que a nossa situação política é irreparável, ou que não existe solução para a nossa crise climática. Acaba sendo fácil pensar que nada mais faz sentido, ou que nós não temos poder algum e não existem motivos para agir. 

Eu costumo dizer que deveria haver apenas uma palavra na porta do nosso templo em Santa Fé: Compareça! Sim, o sofrimento está presente. Nós não podemos negar isso. Hoje, existem 65.3 milhões de refugiados no mundo, apenas onze países estão livres de conflitos, e as mudanças climáticas estão transformando florestas em desertos. A injustiça econômica está levando pessoas a uma pobreza cada vez maior. O racismo e sexismo permanecem desenfreados. 

Mas, entenda, esperança sábia não significa negar essas realidades. Significa encará-las, atendê-las, e lembrar o que mais está presente, como as mudanças em nossos valores que reconhecem o sofrimento e nos levam a lidar com ele nesse exato momento. “Não encontre falhas no presente”, diz o Mestre Zen Keizan. Ele nos convida a vê-lo, e não fugir dele! 

O estadista tcheco Václav Havel disse: “A esperança definitivamente não é a mesma coisa que o otimismo. Não é a convicção de que algo vai dar certo, mas a certeza de que aquilo faz sentido independente do que aconteça”. Não temos como saber, mas podemos confiar que haverá movimento, haverá mudança. E que nós faremos parte disso. Nós seguimos com os nossos dias e saímos para votar, nos sentamos ao lado de um paciente que está morrendo, ou ensinamos aquela classe de alunos do terceiro ano.

Como budistas, nós compartilhamos uma aspiração em comum de despertar do sofrimento. Para muitos de nós, essa aspiração não é um programa de aperfeiçoamento do nosso “pequeno eu”. No coração da tradição Mahayana, os votos do Bodisatva são, em sua essência, uma expressão poderosa da esperança sábia e radical — uma esperança incondicional que é livre do desejo. 

Dostoyevsky disse: “ Viver sem esperança é parar de viver”. Suas palavras nos lembram que a apatia não é um caminho iluminado. Estamos sendo chamados para viver com a possibilidade, sabendo plenamente que a impermanência prevalece. Então, por que não simplesmente comparecer?


Mãos e Olhos: ciclo de práticas para cultivar compaixão

“Muitos de nós estão encolhendo diante dos venenos físico-sociais e das toxinas de nosso mundo. Mas a compaixão, na verdade, mobiliza nossa imunidade.”

―Roshi Joan Halifax
 (no livro “Standing at the edge”)

Como atravessar a pandemia de Covid-19 e todos os outros sofrimentos que ainda teremos? Qual a mente que mais pode nos ajudar a transformar os problemas intensificados nos últimos anos, como a desigualdade social e a destruição ambiental? Sem cair nos extremos da indiferença e do desespero, do desânimo e da ansiedade, como podemos ser mais benéficos uns aos outros? Como viver de modo a naturalmente fortalecer comunidades e redes de apoio?

Aproveitando esse período de reclusão mundial, no qual precisamos não só de uma atitude calma e generosa, mas também de referenciais amplos para construirmos um mundo diferente, faremos um ciclo de estudo e prática daquilo que é considerado a panaceia universal, a fonte da felicidade e o próprio sentido da vida: a compaixão.

Serão 7 semanas, de abril a maio, com condução de Fábio Rodrigues e participação de Jeanne Pilli e de Cristiano Ramalho, culminando em um encontro ao vivo com a própria Roshi Joan Halifax.

Veja como será, convide pessoas queridas e desfrute →