A relativização da ética produz cinismo e sofrimento. Do modernismo pra cá, cremos que não deveria haver exame moral sobre as expressões artísticas e culturais, que questionar isso é igual questionar a liberdade da própria expressão humana. Mais recentemente, esta mesma justificativa é invocada até mesmo para justificar os discursos de ódio na propaganda política. Claro, há a liberdade fundamental para fazer qualquer coisa, e o juízo moral só é possível na medida que elencamos alguma visão de mundo como referencial.

Ipê da série “uma flor abre o mundo”, de Fábio Rodrigues

E, naturalmente, nós já fazemos isso, vivemos enlaçados por uma teia bem complexa de crenças . Não há como não ter fé. Todos acreditamos em algo, e a escolha possível é a respeito do que e de como crer. O refúgio da nossa sanidade pode incluir deus, a ciência, um conjunto intangível de narrativas ou princípios éticos, dinheiro, coisas, carreira, emprego, o próprio intelecto, a família, os “bons costumes”, uma banda, a posição política, dois banhos ao dia, uma dieta… Literalmente, qualquer coisa entra na lista.

Conectando fé à natureza da existência, Thinley Norbu Rinpoche dizia: “Vacas tem fé em grama”. No livro “A lógica da fé”, publicado pela Lúcida Letra e que estudaremos no lugar , a Lama Elizabeth Mattis Namgyel explica que os variados usos do termo “fé” tem uma coisa em comum: eles refletem o desejo de encontrar tranquilidade em um mundo que não oferece garantias.

Ipê da série “uma flor abre o mundo”, de Fábio Rodrigues

(Gostamos de pensar que somos protegidos pela laicidade do estado, livres da pregação ideológica ou religiosa, de preceitos morais e éticas normativas, mas basta andar em qualquer espaço físico ou virtual para ver que a doutrinação continua. As placas e anúncios ainda pregam mensagens bem claras e eficientes sobre como devemos levar a vida, e isso basicamente envolve consumir, trabalhar e se entreter bastante, manter as estruturas de poder, perguntar pouco, seguir se ajustando.)

Nas pinturas, ipês da série “Uma flor abre o mundo”. As árvores já começaram a florir aí?

Fé, logo irão.


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Grupo de estudo online sobre interdependência

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Do colapso ambiental à desigualdade social, do racismo ao negacionismo, todos os nossos problemas atuais surgem de ignorarmos a realidade da interdependência. Esse é o tema, ainda mais em nosso tempo. E é raro encontrar um livro apenas sobre isso — com práticas!

Nos últimos três anos, com mais de 900 pessoas de todo canto do Brasil e do mundo, estudamos juntos os livros Um coração sem medo (Thupten Jinpa), O poder de uma pergunta aberta (da própria Elizabeth Mattis-Namgyel) e Quando tudo se desfaz (Pema Chödrön).

Dessa vez, vamos nos debruçar por 14 semanas em um livro que integra e aprofunda tudo o que exploramos nesses estudos anuais: A lógica da fé, de Elizabeth Mattis-Namgyel. Começaremos em agosto, dentro da nossa comunidade online!

Se quiser participar, todas as informações estão aqui: olugar.org/fe