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Se a compaixão virasse um ser, como ele seria? Para quem deseja manifestar as inteligências do coração, pode ser bem útil estudar a figura clássica de Avalokiteshvara. Depois de assistir ao vídeo curtinho acima, leia abaixo dois excertos do livro “O Sutra do Coração: um guia abrangente para o clássico do budismo mahayana”, de Kazuaki Tanahashi, publicado no Brasil pela Editora Lúcida Letra. A tradução é de Marcelo Nicolodi, com edição de Fábio Rodrigues.

Como a sabedoria além da sabedoria não é separada da bondade amorosa, podemos também precisar de um lembrete e de um reforço para a bondade amorosa. Para esse propósito, o encantamento de um breve texto denominado “Sutra de Avalokiteshvara da afirmação da vida em dez linhas” (Emmei Jukku Kannon Gyo) é frequentemente usado. A versão em japonês é assim:

Kanzeon
namu butsu
yo butsu u in
yo butsu u en
bupposo en
jo raki ga jo
cho nen Kanzeon
bo nen Kanzeon
nen nen ju shin ki
nen nen fu ri shin.

O sutra é normalmente cantado em voz alta muitas vezes, cada vez com velocidade e volume maiores. Joan Halifax e eu traduzimos essa escritura, como se segue:

Avalokiteshvara, aquela que percebe os lamentos do mundo,

toma refúgio no Buda,

será um buda,

ajudará todos a serem budas,

não está separada de buda, dharma e sangha,

sendo eterna, próxima, pura, e jubilosa.

Pela manhã, esteja em união com Avalokiteshvara,

À noite, esteja em união com Avalokiteshvara,

cujo coração, momento a momento, se eleva,

cujo coração, momento a momento, permanece!

Hakuin, mestre Zen japonês do século XVIII e considerado o restaurador da Escola Zen Rinzai, encorajava seus alunos a cantarem esse sutra. Como resultado, a breve escritura tem sido recitada desde então, e em geral diariamente, em monastérios e centros Zen Rinzai. Espero que seja entoado também em outras escolas do budismo.

Este é um texto de origem chinesa. Segundo a Cronologia dos Budas Ancestrais (Fuzu Tongji), compilada por Zhipan em 1269 d.C., o general Wang Xuanmo, em 450 d.C., derrotado e aprisionado, recebeu o sutra em um sonho e sua intensa recitação o salvou da execução.

”Bodisatva Avalokiteshvara de mil braços de pé”, escultura de Enku (1632–1695), Japão

O bodhisattva Avalokiteshvara, invocado no início do Sutra do Coração, é normalmente considerado feminino na Ásia oriental (apesar de o mundo indotibetano ainda visualizar Avalokiteshvara na forma masculina). Assim, podemos dizer, de modo limitado, que “ela” é uma deusa da bondade amorosa. De fato, ela é a bondade amorosa personificada. Bodhisattva já se tornou uma palavra pertencente ao inglês (e ao português). Mesmo assim, é uma palavra tão rica que não é sempre fácil compreender o que significa nos diferentes contextos. Joan e eu traduzimos bodhisattva, em nossa versão do Sutra do Coração, como alguém “que auxilia todos a despertarem”. Pessoalmente, eu gostaria de ver Avalokiteshvara como uma deusa, em parte porque o conceito de deusa não se restringe ao budismo. É minha esperança que as pessoas desenvolvam uma visão interreligiosa sobre este bodhisattva.

Todos nós precisamos de uma imagem ideal da bondade amorosa que seja central à sabedoria além da sabedoria. Quando confrontados com a escolha de sermos indiferentes, insensíveis e violentos, ou bondosos e amorosos, nosso modelo (ou imagem ideal) poderia nos ajudar a adotar uma postura positiva e afirmativa da vida. Assim, sustentar Avalokiteshvara em nossa consciência e invocar o nome da deusa é, potencialmente, uma poderosa prática.

Podemos perguntar: “Você é uma deusa de bondade amorosa?” e você poderia responder: “Não, eu sou um ser humano” ou “eu sou um homem, como poderia ser uma deusa?”. Mas o “Sutra de Avalokiteshvara da afirmação da vida em dez linhas” nos convida a sermos “unos com Avalokiteshvara.” Por que, então, não imaginar que, independentemente de como possamos nos definir, podemos também ser unos com a deusa?

Permitam-me lançar a pergunta novamente:

Você é uma deusa de bondade amorosa?


A invocação de Avalokiteshvara

Avalokiteshavara, um ser mitológico central para um grande número de praticantes budistas, é a personificação da bondade amorosa mencionado apenas uma vez nessa breve escritura. Entretanto, é importante a descrição deste bodhisattva, na primeira linha, como alguém que se move por meio do profundo curso de realização da sabedoria além da sabedoria. Assim, essa linha implica que a sabedoria além da sabedoria não está separada da bondade amorosa. Ampliarei a discussão da relação entre esses dois aspectos cruciais da consciência humana mais adiante, neste capítulo.

“Avalokiteshvara mecânico”, escultura de Wang Zi Won, 2011, Coréia do Sul

De acordo com o Sutra do Coração, é por meio da prática da sabedoria além da sabedoria que Avalokiteshvara se liberta de dukkha. 

A palavra sânscrita dukkha é normalmente traduzida como “sofrimento”, que pode se referir a uma dor física persistente ou à perda causada por doença, ferimento, violência, ataque, injustiça ou desordem social. Recentes estudos científicos mostram que a meditação da atenção plena pode ajudar a reduzir o estresse e proporcionar cura para dificuldades físicas e desordens psicológicas. Assim, é concebível que uma prática como a meditação de Avalokiteshvara possa, às vezes, ajudar a remover o sofrimento causado por ferimentos ou doenças.

O sofrimento também pode consistir em dor existencial e desconforto causados pelo medo da morte, separações, insatisfação ou incapacidade de satisfazer desejos. Em tais exemplos, o impacto emocional do sofrimento pode ser caracterizado como angústia. A meditação acalma a mente e ajuda a ver além dos problemas ou desejos imediatos.

A prática pode conduzir a uma mudança de paradigma em direção a um estilo de vida menos materialista e competitivo. Assim, a meditação pode ser efetiva na redução da dor causada pelo medo, pela tristeza e pelo desejo. A liberdade de Avalokiteshvara diante da angústia é um modelo apresentado no sutra. Ao compreender, recitar e praticar esse princípio de liberdade muitas outras pessoas também podem experimentar a liberação. Assim, podemos interpretar o fim da primeira linha do sutra como “(Avalokiteshvara) liberta todos (aqueles que a praticam) da angústia”.


Arte de Fábio Rodrigues

Mãos e Olhos: ciclo de práticas para cultivar compaixão

Como atravessar a pandemia de Covid-19 e todos os outros sofrimentos que ainda teremos? Qual a mente que mais pode nos ajudar a transformar os problemas intensificados nos últimos anos, como a desigualdade social e a destruição ambiental? Sem cair nos extremos da indiferença e do desespero, do desânimo e da ansiedade, como podemos ser mais benéficos uns aos outros? Como viver de modo a naturalmente fortalecer comunidades e redes de apoio?

Aproveitando esse período de reclusão mundial, no qual precisamos não só de uma atitude calma e generosa, mas também de referenciais amplos para construirmos um mundo diferente, faremos um ciclo de estudo e prática daquilo que é considerado a panaceia universal, a fonte da felicidade e o próprio sentido da vida: a compaixão.

“Muitos de nós estão encolhendo diante dos venenos físico-sociais e das toxinas de nosso mundo. Mas a compaixão, na verdade, mobiliza nossa imunidade.”

―Roshi Joan Halifax
 (no livro “Standing at the edge”)

Serão 7 semanas, de abril a maio, com condução de Fábio Rodrigues e participação de Jeanne Pilli e de Cristiano Ramalho, culminando em um encontro ao vivo com a própria Roshi Joan Halifax. Começou já, mas está tudo gravado e ainda dá tempo de participar!

Veja como será, convide pessoas queridas e desfrute →