a graça de uma relação
Broad City (série do Comedy Central): Abbi e Ilana exemplificam como é possível desfrutar dos perrengues incessantes

A graça de uma relação é você encontrar uma diversão, uma vontade, uma disposição de trabalhar com as merdas todas. Aí, sim, você se conecta, você aprofunda. Podemos dizer algo assim: “70% de nosso relacionamento será feito de aflições que você e eu vamos manifestar em turnos. Eu tenho disposição ou não para lidar com as aflições?” Isso é que é namorar.

Quando a confusão envolve abuso e violência, claro, trabalhar com a confusão significa NÃO. Significa denunciar, prender, se afastar. Mas quando a confusão vem junto de uma relação saudável que apoia um ao outro, sim, faz sentido trabalhar com a complicação que vem no pacote (a nossa, a do outro e a da vida ao redor) de modo mais próximo.

Quando a gente se toca disso, de que a vida é incerta e caótica, começamos a ficar felizes. Chögyam Trungpa — ao explicar virya, a quarta das seis perfeições, às vezes traduzida como diligência, perseverança ou entusiasmo — diz que a origem da energia constante é você ter um prazer em trabalhar com as situações, um prazer em trabalhar com a mente, uma diversão, uma alegria de trabalhar com a raiva, o ciúme, o autocentramento… em você mesmo e nos outros. Você nunca se cansa, você se alegra, você sorri em meio ao esforço. Se tivermos isso, teremos uma relação boa com todo mundo. Porque todo mundo vai ter problema! Então, naturalmente, passamos a amar todo mundo.

Um namoro não acaba por problemas. Um namoro acaba quando cessa a disposição de trabalhar com os problemas. E às vezes acaba mesmo. Ou, às vezes, a disposição de trabalhar com problemas percebe que é mais benéfico se aproximar de outras pessoas, de outros problemas. Podemos nos distanciar por cansaço, mas podemos também nos divorciar por compaixão.

É muito liberador entender que a graça da relação é o problema, não alguma outra coisa. Mais precisamente, a graça de uma relação é a nossa energia constante diante dos problemas. Se encontramos as complicações com uma atitude de sabedoria (que vê qualquer situação como algo vivo, dinâmico, complexo, aberto, interdependente), de compaixão (que vê possibilidade de saída) e amor (que reconhece e estimula o potencial de florescimento de cada ser, comunidade, lugar, situação), nos aproximamos do que Lama Padma Samten chama de “o esporte, a diversão, a aventura dos bodisatvas”.

A fonte da energia constante está na mente que não vê problema quando aparece um problema. Não é engraçado como buscamos energia constante exatamente onde nunca vamos encontrar? Longe dos problemas, em alguma cachoeira, em algum refúgio que certamente não está nos problemas. Tal energia se perturba assim que um problema surge…

Isso não é masoquista, não vamos procurar problemas ou cair em relações problemáticas. Se você não tem condições de trabalhar com aquilo, você se distancia. Você acaba encontrando uma distância em que consegue trabalhar com aquilo… Por exemplo: “Esse namoro eu quero. Tem umas partes boas, muitas partes ruins, mas eu consigo lidar, eu estou com uma alegria de mexer nisso tudo. Então, quer casar comigo?”

Não é pessimista. Só não é romântico. É uma visão além dos extremos de niilismo e romantismo. Pelo contrário, ao aumentar sua disposição para lidar com problemas, você aumenta sua dignidade e não aceita qualquer migalha de relação e felicidade. Você eleva o nível e a qualidade da relação em todos os sentidos. Você quer problemas mais profundos, coletivos e sutis, você quer os problemas da família, dos amigos, não só os do casal, não só os mais grosseiros, não briguinhas e draminhas previsíveis que você encontra em qualquer lugar. E com isso você gera confiança, cuidado, ludicidade mais profundas também. Ao focar em mais e mais problemas, os problemas do casal são relativizados: eles naturalmente ficam menores, perdem a capacidade de nos paralisar, então podemos relaxar, respirar e seguir em meio a eles.

Claro, tal apreciação envolve também a parte boa: as qualidades de um, de outro e do casal, as relações que se abrem, sexo, convivência, cafés, almoços, jantares, sonhos em comum… Mas por que não aprender a desfrutar também da outra parte?

Isso muda a nossa vida. Não vai chegar um momento em que a nossa vida vai, enfim, começar. Não vai chegar um momento em que a gente vai se livrar de todos os problemas. Nossa vida são os obstáculos. O caminho é esse. Não há outra vida a não ser essa.

“Quando nunca nos cansamos das situações, nossa energia é alegre. Se estivermos completamente abertos, plenamente despertos para a vida, nunca teremos um momento enfadonho. Isso é virya.”

“Virya é captar o encanto em — e trabalhar arduamente com—qualquer elemento básico que tenhamos: nossas neuroses, nossa sanidade mental, nossa cultura, nossa sociedade.”

“Ao tomarmos o voto do bodhisattva, reconhecemos que o mundo ao nosso redor é viável. Do ponto de vista do bodisatva, não se trata de um mundo inflexível, incorrigível. Pode-se agir sobre ele. […] Em outras palavras, temos de ter algum interesse em cuidar das pessoas, alguma apreciação do mundo fenomenológico e de seus moradores. Isso não é uma questão fácil. Exige que não nos sintamos completamente exaustos e dissuadidos pela neurose grosseira das pessoas, a sujeira do ego, o vômito do ego, ou a diarréia do ego; ao invés disso, estaremos compreensivos e dispostos a limpar para elas. É um sentimento de suavidade através do qual permitimos que as situações ocorram, não obstante os seus pequenos inconvenientes; permitimos que as situações nos incomodem, nos abarrotem.”

—Chögyam Trungpa Rinpoche (nos livros “Além do materialismo espiritual”, “O mito da liberdade e o caminho da meditação” e “The heart of the Buddha”)

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