Arco-íris sobre os Himalaias

Uma contemplação a partir da meditação analítica “Não faça disso uma coisa”, sugerida por lama Elizabeth Mattis Namgyel

Se você parar uma pessoa na rua e perguntar “Como está a vida?”, é bem provável que ouvirá uma série de “coisas”: ela vai falar do “namoro”, do “trabalho”, de algum “problema”, de seu “momento atual”… Se ela for mais privilegiada, talvez conte de algum “novo ciclo” ou que está trabalhando alguma “questão” na terapia. Falamos sobre tudo isso como se estivéssemos apontando para alguma coisa real, lá fora, verdadeiramente existente em algum lugar, com vida própria.

Na abordagem de Elizabeth Mattis-Namgyel (leia O poder de uma pergunta aberta e A lógica da fé), tais coisas existem apenas no que ela chama de mapa: designações conceituais repetidas pela mente discursiva. Enquanto o mapa é permanente, unidimensional e delimitado, o território é vivo, dinâmico, aberto. No mapa, consigo apontar onde está o bairro “Pinheiros”, mas quando começo a andar, tudo o que encontro são muitas coisas que não são “Pinheiros”, como essa árvore, aquela pessoa, esse paralelepípedo… Estou em Pinheiros, mas onde exatamente está Pinheiros? Como diz Dzogchen Ponlop Rinpoche, brincando com seus alunos, “se você quer que as coisas sejam reais, não as analise”.

Ainda que não seja encontrável, Pinheiros aparece. É um mero nome abstrato que não se refere a alguma coisa específica, mas a criatividade de minha mente dá a impressão de que é algo gigante. Costuro várias coisas que não são Pinheiros, como o Jazz nos Fundos, a Veronica do café Polska, aquela esquina, esse restaurante… e então Pinheiros surge, com passado e tudo. Sou capaz até de contar histórias sobre Pinheiros antes do bairro ser assim chamado, ou seja, projeto uma existência até mesmo quando Pinheiros não existia! É parecido com pegar uma foto antiga, apontar para uma bebê e dizer: “Essa aqui é a minha esposa…” Quando não reconhecemos a vacuidade de Pinheiros, podemos nascer com uma identidade cheia de orgulho (“Eu sou de Pinheiros!”), inveja (“Vila Madalena é ainda melhor”), carência, raiva… Mas não há nenhuma fronteira entre Pinheiros e Vila Madalena. Por quê? Por que Pinheiros e Vila Madalena não estão em lugar algum. Eles são apenas uma sensação compartilhada de estar em Pinheiros ou estar na Vila Madalena, nada além disso. Nossa mente é tão incrível que consegue desejar, odiar, competir, se orgulhar por coisas insubstanciais! É assim como tudo, principalmente com o que chamamos de “eu”.

Tal contemplação é crucial porque sofremos por coisas que só existem no âmbito das designações conceituais, apenas no mapa. Para sofrer, precisamos reificar, coisificar, congelar, objetificar, concluir, fechar experiências naturalmente abertas. Precisamos sustentar algum inimigo, obstáculo, problema… Sem perceber que estamos sustentando, como se eles tivessem vida própria. Na verdade, eles têm vida, mas não é separada e não é unidimensional como nossa visão fixada faz parecer.

Quanto maior o conflito e a perturbação, pode observar, mais estamos vendo o outro, a situação e a nós mesmos como uma coisa singular, permanente e independente. No entanto, eu, o outro e a situação são processos múltiplos (multidimensionais, compostos de várias partes e facetas), impermanentes (dinâmicos, mutáveis, fugazes, não capturáveis) e interdependentes (relacionais, coemergentes, inseparáveis). Quanto mais vejo com sabedoria, mais me relaciono de modo saudável com a realidade: a contração relaxa e consigo agir de modo mais benéfico.

Ao falar “meu namoro” ou “meu trabalho”, ao que exatamente nos referimos? Na hora da morte, será muito liberador perceber que não há e nunca houve tal coisa como “minha vida”. Essa sensação de trajetória — “fiz isso, passei por aquilo” — só existe para mim. E como chamamos aquilo que só uma pessoa vê? Alucinação. Não por acaso é essa palavra que Lama Zopa Rinpoche tanto repete ao ensinar sobre a mente autocentrada.

A experiência de buscar pela solidez e não encontrar pode gerar uma espécie de espanto diante da realidade. E às vezes isso vem com algum senso de humor. Não é engraçado como corremos atrás de fantasias e fugimos de monstros que nós mesmos estamos construindo sem perceber?

Nós tendemos a achar que esse espanto é passivo, mas é justamente essa a visão que revela o complexo emaranhado de causas e condições mutáveis por trás de qualquer situação aparentemente consolidada e incontornável. Acompanhe a agenda e a quantidade de projetos coordenados por mestres de lucidez para comprovar como não há nada mais ativista do que a sabedoria.

A visão do Caminho do Meio não nega a vida em toda a sua expressão, mas refuta a crença de que a vida seja uma coisa. Tal sabedoria é a própria compaixão! Por exemplo, por trás da destruição do meio ambiente e do rebaixamento da dignidade humana por grandes corporações ou pelo governo, estão canetadas em contratos diante de números abstratos, que surgem por objetificação: a realidade inteira é reduzida a números, sem que ninguém vá lá conhecer a mata ou a vida de cada ser. É essa a diferença entre destruição e cuidado: quem destrói está fixado no mapa (autocentrado em planilhas financeiras, por exemplo) e quem cuida está olhando para o território: o mundo vivido, o bem-estar dos seres, o bioma, as árvores, a água, a terra, o ar, o céu…

Se vemos uma coisa singular (“tantos mil hectares de terra”), é fácil destruir; se vemos uma realidade viva, multidimensional, complexa e interconectada, é natural cuidar | Foto de Lalo de Almeida antes dos incêndios criminosos no Pantanal

Compartilho outro exemplo. Uma vez, no intervalo de um retiro com lama Alan Wallace, estava andando por uma estrada e passei por uma casa toda arrumadinha, na qual um casal de idosos mexia no jardim. A visão durou poucos segundos. Nunca mais os encontrei. Eles existem além da minha mente, claro, mas como não consigo pular a cerca da mente, o que são eles para mim? Uma lembrança. Uma mera aparência. Um flash sem base.

Se eu passar lá de novo, isso mudará? E se eu parar e conversar por um minuto? Uma hora é suficiente para a coisa ser mais real? E se eu morar nessa casa chamando-os de vô e vó? Mil aparências de sonho são mais reais do que apenas uma aparência de sonho?

“Ah, mas com certeza eles existem”, você poderia dizer. Meu vô se olha no espelho e, assim como acontece comigo, não consegue pular para fora da sua mente. Ele é uma aparência para si mesmo — tátil, visual, auditiva, gustativa, olfativa, mental. Para a minha vó, meu vô surge com outra aparência, é um outro flash. Meu vô é exatamente qual dessas aparências? Se for alguma delas, ele morreria quando alguma cessasse, pela morte de alguém, por exemplo. Não é o caso. Inclua também as experiências que ele tem de si mesmo: ele é alguma emoção, alguma imagem mental de si mesmo, alguma qualidade? Se ele não pode ser encontrado em nenhuma aparência, nem dele e nem dos outros, ele deve estar em algum lugar fora das aparências. Mas onde isso seria?  Se ele não está fora das aparências e não está nas aparências (nem em uma específica e nem na soma de todas), onde ele está? Não conseguimos dizer que ele existe! Por isso muitos mestres usam a expressão “vazio de existência inerente”, o que dissolve o extremo do substancialismo. Ao mesmo tempo, observe como você pode falar dele, se irritar, pensar, lembrar, se emocionar, ver, tocar. Não temos como negar o mundo infinito das experiências. Então não podemos dizer que ele não existe! Ele é igualmente vazio de não-existência inerente, descoberta que nos desvencilha do extremo do niilismo. Sua natureza está além de existência, não-existência, ambas e nenhuma. Ele aparece, mas não está lá.

Do mesmo modo, da próxima vez que se pegar dizendo “Ele me magoou”, investigue sua experiência imediata: ao que você se refere ao dizer “ele”? Você se refere a alguém que está agora dormindo, comendo, tomando banho? Ou a pessoa ainda está naquela cena, em loop, falando aquilo para você? Ao que você se refere por “mágoa”? Há algo no seu corpo que seja uma mágoa? Se for respiração perturbada, qual parte? O ar que entra agora? Ou o ar que sai? Ainda que você esteja na sala onde tal mágoa parece ter acontecido, a sala virou mágoa? Se você conclui que a mágoa está na mente, onde exatamente? Isso está tão presente que poderia te levar a falar ou escrever por horas, mas ao mesmo tempo onde isso está? Você está magoada mesmo ou às vezes você se pega só bebendo água e pensando em outra coisa? Se você solta o conteúdo da história, a mágoa continua por si só? O que é a mágoa antes de você a chamar de “mágoa”?

Quando você olha o orgulho como orgulho, ele é só isso: orgulho. Ele não é seu, ele não resume sua vida, ele não precisa comandar sua ação. Ele, nele mesmo, não tem seriedade alguma. Tudo o que nos faz sofrer quando temos orgulho vem da seriedade que colocamos. Observe assim qualquer emoção. Escrevemos em caixa alta “EU TENHO CIÚME E NÃO AGUENTO MAIS” onde existe apenas uma experiência volátil, sem caixa alta, sem eu, sem algo específico que a gente poderia envelopar e mostrar para alguém no meio da rua: aqui está meu ciúme, pega. O ciúme é apenas uma sensação de estar com ciúme. É apenas uma ação da mente. Se você inverte sua atenção e flagra a mente que se contorce em ciúme, você imediatamente fica livre do ciúme em meio ao ciúme, como uma bailarina que está em uma posição mas sabe que não está presa ali, que não virou aquilo, que segue livre.

Quando não olhamos, as coisas existem e nos afligem. Quando olhamos, a solidez das experiências vai cada vez mais se mostrando insubstancial, misteriosa, indefinível, leve, fluida, aberta, não localizável, além de qualquer conclusão. Todas as pessoas, todas as situações, todos os lugares, todos os fenômenos são assim. É por isso que precisamos olhar um a um. A confiança vem de testar essa visão até que nossa vida inteira se transforme em incontáveis exemplos de algo que nitidamente aparece, mas não está lá.

A ausência desse espanto diante da realidade acaba gerando desânimo, depressão, falta de sentido e interesse. Sem contar que essa mente reduz tudo a coisas (tarefas, projetos, eventos, dramas, histórias…) e acaba encolhendo o espaço amplo da realidade. Perdemos a vida justamente na tentativa de construí-la. 

Em um dos momentos de sua última passagem pela América do Sul, Dzongsar Khyentse Rinpoche nos disse o seguinte (reproduzo de memória pois não era permitido gravar): uma coisa nunca é apenas uma coisa, então podemos ver uma infinita dança acontecendo o tempo todo, de graça, sempre com um twist digno das melhores histórias de Sherlock Holmes.

Experimente a prática “Não faça disso uma coisa”

A prática “Não faça disso uma coisa” é uma das meditações analíticas do capítulo “Investigando as coisas” do livro A lógica da fé, inteiro sobre interdependência, da lama Elizabeth Mattis Namgyel. Se quiser estudá-lo e praticá-lo em comunidade, ainda estamos na metade do processo e dá tempo de embarcar. Aqui estão todas as informações: olugar.org/fe

O texto acima foi publicado na edição impressa da revista Bodisatva n. 31, no outono de 2019, com o tema “A grande virada”, que pode ser encomendada aqui.