Pelo meio da onda de sofrimento que está chegando, se olharmos bem, veremos a normalidade se desmanchar pedaço a pedaço. Já está acontecendo. Na nossa frente.

A economia, o trabalho, o capitalismo, as prioridades, a rotina, o mercado, a organização, a saúde, o consumo, a agenda, as opiniões, a permanência, a sanidade, tempo e espaço loteados, aquilo que sentimos como mais normal, a coisa que parece mais indiscutível, mais real, vai se desfazer bem aí, onde parece existir desde sempre.

Raríssimo, uma janela que se abre poucas vezes na história – talvez especialmente em lugares como o Brasil, onde nunca sofremos algo como uma guerra, por exemplo.

Duas das mil coisas para enxergar:

Ficará espantosamente óbvio que a realidade é plástica, onírica, construída e sustentada momento a momento, ainda que nos pareça com toda força que não. Isso é de nos fazer respirar com esperança e alívio enormes:

Qualquer
situação
pode
ser
transformada.

Não é uma ideia humana, sempre esteve aí: sabedoria.

É essencial (como escrito nos decretos) haver eletricidade, água, alimento, saúde, comunicação etc. E no cerne do essencial (não escrito nos decretos) veremos a óbvia dimensão de afeto e bondade que nos salva a cada momento do desespero e que dá origem ao próprio sentido de que:

A vida
deve
ser
cuidada.

Não é uma ideia humana, sempre esteve aí: compaixão.

Através de um vírus, a inteligência ecológica nos apontará a realidade inegociável por trás das aparências. Covid19 nos acordará com um golpe de dor excruciante, como um buda de compaixão irada.

O abrir dos olhos talvez seja breve.

Que a gente possa não esquecer do que for visto.


Fiquem com o céu, que nunca se indisponibilizou, intocado, acolhendo todos esses sonhos.