Ao ver as filmagens da recente violência na “Cracolândia”, em São Paulo, fica clara a divisão da sociedade: observe como se olham ativistas, policiais, governantes e as pessoas que ali sobrevivem. Parece não existir um sonho convergente, que poderia nos levar a soluções como as implementadas em Portugal e na Suíça.

Qual a saída para esse e todos os outros problemas? Como diz Matthieu Ricard, por mais complexa que seja a questão do aquecimento global ou da concentração de renda, tudo se reduz a duas atitudes mentais: altruísmo e egoísmo. Ele diz que só o altruísmo é capaz de conciliar três escalas de tempo: a economia a curto prazo, a qualidade de vida a médio prazo e o meio ambiente a longo prazo. Portanto, o melhor eixo para direcionar tudo o que sonhamos e fazemos é a compaixão: a mente que deseja aliviar o sofrimento e trazer benefícios em todas as direções.

A compaixão não é mais uma teoria. A compaixão move nossa energia tão diretamente como faz um sorriso genuíno. É a expressão mais simples e profunda do nosso coração. Assim como não é preciso convencer uma pessoa de que ela é humana, não tem como discordar da compaixão: nós nascemos disso, somos feitos disso. A compaixão não precisa de campanha publicitária, slogan, palestra com slides, fundo de investimento, advogado de defesa, partido político ou lei. Só a compaixão é sempre vitoriosa.

Como se existisse um argumento imbatível, um movimento apoiado por todos ou uma canção com a qual não tem quem não dance, quem pratica compaixão não vê opositores ou adversários. A compaixão é o grande espaço além das bolhas e jogos limitados. Só a compaixão consegue nos unir instantaneamente, antes mesmo do “Oi, prazer…”. Após um tsunami, ninguém pergunta sobre filiação política, gênero, etnia ou time de futebol: todo mundo se junta para a reconstrução. Além dos extremos da indiferença e do desespero, a compaixão é a melhor resposta diante do sofrimento. Especialmente quando parece que precisamos de algum outro conceito ou modelo inovador, o que está faltando é compaixão.

Compaixão é a grande tendência do momento. Sempre foi, sempre será.

Se todos os seres se movem evitando o sofrimento, compaixão é o grande propósito por trás de todo e qualquer propósito. Não tem segredo, não é pessoal, não é algo exclusivo de alguém, não precisa gastar dinheiro com workshops e livros do estilo “Encontre o seu propósito”.

Precisamos aprender, pesquisar, palmilhar, refinar, estudar, imitar, praticar, conversar, respirar compaixão, explorando suas implicações em absolutamente todos os âmbitos da ação humana. Quais as inteligências da compaixão e como praticá-las? Como seria ampliar a compaixão aqui? E ali? E na educação? E nesse trabalho?

Há métodos não-religiosos para isso, como o Compassion Cultivation Training, curso de 8 semanas na Universidade de Stanford. Um bom começo é a leitura de Um coração sem medo, de Thupten Jinpa (geshe tibetano, doutor pela Universidade de Cambridge e tradutor de Sua Santidade o Dalai Lama), livro acessível, cheio de histórias e também de instruções práticas — servindo como o único material em português sobre o programa de cultivo da compaixão que Jinpa desenvolveu com outros pesquisadores do CCARE (Centro de Pesquisa e Educação da Compaixão e Altruísmo), em Stanford.

Sua Santidade o Dalai Lama e Thubten Jinpa
Sua Santidade o Dalai Lama e Thubten Jinpa

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