Cena de “Pina”

Nós não queremos namorar, nós queremos ser felizes. E a identidade do namorado é incapaz de favorecer o movimento de uma mulher livre simplesmente porque ele não consegue sequer vê-la: o namorado só enxerga a namorada, a namorada só enxerga o namorado. Se isso não lhe é evidente, acompanhe o que acontece quando a mulher chega um dia e diz “Não dá mais” ou “Já estou apaixonada por outro”. Ele surta. O namorado não sabe fazer nada além de namorar e exigir que outra pessoa aja como namorada. Sem esse processo, o namorado não existe (não por acaso muitos tentam de fato se matar), não sabe o que fazer.

É como namorados, nessa base frágil e mimada, que desejamos viver um relacionamento?

A diferença do namorado para o homem parceiro é a diferença entre as visões “Eu desejo que minha namorada seja feliz ao meu lado” e “Eu desejo que essa mulher, que calhou de estar por perto agora, seja feliz”. A parceria é a única relação permanente: somos parceiros no começo, no meio, no fim e depois do fim.

Podemos aproveitar a proximidade da relação de paternidade para sutilmente restringir as potencialidades do nosso filho — pelo simples fato de o tratarmos sempre como filho — ou para ajudá-lo a andar melhor. Melhor do que ser um bom pai ou um bom marido é ser um bom parceiro. Melhor do que ser uma boa esposa é ser uma parceira. Grande alegria ser cúmplice do crescimento de um ser, não importa se como amigo, ex-marido, primo, funcionário ou desconhecido.

Ainda vivemos com um foco exagerado no relacionamento amoroso. Mas curiosamente esse cuidado todo parece ser sempre insatisfatório, afinal o tempo que passamos como namorados (usando inteligências e movimentos do namorar) é quase nada perto do que passamos sendo parceiros. O casamento não é algo especial, apenas mais uma parceria. Fazer uma esposa feliz é fácil. O desafio é ajudar uma mulher inteira a viver melhor. Quanto mais tivermos inúmeras parcerias com todos ao redor, melhor será a qualidade de nossa relação amorosa num casamento, já que teremos treinado bastante essa relação de parceria e naturalmente vamos fazer o mesmo com a mulher atrás da esposa, com o homem atrás do marido.

Não precisamos de manuais ensinando a seduzir, namorar, apimentar o casamento; precisamos trabalhar com nosso corpo, mente, pensamentos e emoções para compreender as dinâmicas profundas que causam sofrimento e felicidade. Sem isso, não conseguimos apoiar ninguém. E ironicamente é isso que faz alguém desejar ficar ao nosso lado, não nossas habilidades de namorado.

Publicado originalmente na revista Vida Simples em dezembro de 2012.


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