Arte: Odyr

Nesse período de luto e desdobramentos da morte, da vida, das visões e ações de Marielle Franco, muita gente foi se juntando para conversar e sonhar um outro mundo. Como parte disso, recebi uma pergunta, escrevi rapidamente num comentário no Facebook e agora compartilho a resposta, a pedido de algumas pessoas.

“Gustavo, posso fazer uma pergunta leiga, mas de coração? Como encontrar e sustentar a compaixão nesse momento?”

O ideal seria você fazer essa pergunta para quem realmente manifesta compaixão, seja uma professora contemplativa ou uma ativista da paz — às vezes encontramos ambas as qualidades em um só ser. Mas você pode olhar o que já está acontecendo: há muitas pessoas que dizem “Isso é inadmissível, não podemos deixar isso se naturalizar, precisamos entender o que aconteceu e mudar todas as estruturas por trás de mortes assim, precisamos nos unir e criar um país em que isso não seja algo possível de acontecer…” Essa voz em nossas mentes, ainda que surja em meio a névoas e aflições, já é a compaixão.

Se você olhar o movimento de Marielle, foi tão benéfico que mesmo depois de sua morte, ela segue trazendo benefícios. Ela se foi, mas seu movimento segue em outros seres, tocados por sua dedicação a redução da desigualdade social, do enfrentamento militarizado, do machismo, do racismo… Tal é o poder dos grandes seres: até morrendo eles nos ajudam a despertar. Isso também é a compaixão. A aspiração deles de trazer benefícios foi tão grande que isso se realiza na hora da morte e também por muito tempo depois.

A própria revolta que sentimos vem da compaixão, de não desejar esse sofrimento — que nesse caso concentra incontáveis sofrimentos… tem todo um país ali. É inconcebível. A dor também vem da mente da compaixão. Tanto é que o mundo inteiro foi tocado: pessoas em outros países parando discursos, cerimônias, shows para falar sobre a situação.

Junto com a dor, buscamos por alguma visão de saída, senão as pessoas estariam se matando. E não estão: estão postando na internet, se reunindo em passeatas e diálogos, sonhando outro mundo, tentando entender como chegamos a esse ponto. Isso tudo é a mente da compaixão já operando. A compaixão se deixa tocar pelo sofrimento, mas mantém o desejo de liberar o sofrimento, confia que há saídas e se move nessa direção.

Em algum momento talvez a pessoa queira fazer algo ainda mais ousado: incluir todo mundo nessa contemplação. Apenas como um experimento de percepção, imagine se foi você quem a matou, a comando de algum grupo do governo, da polícia, de alguma corporação, não sabemos. Imagine que calhou de ser você lá naquele carro, disparando os tiros e agora você lê toda a repercussão desse ato que durou segundos. A gente tende a achar que existem pessoas demoníacas, mas quem matou e quem mandou matar são pessoas como nós, completamente envolvidas em jogos desumanos, em confusões… É uma mente de muito sofrimento! Essas pessoas estão sofrendo agora, mesmo que seja de indiferença ou ansiedade por não serem pegas. E em algum momento vão se arrepender e sofrer muito. Imagine o tamanho da culpa. É como matar alguém durante uma bebedeira. Imagine a dor que é acordar no dia seguinte e perceber o que você fez.

Isso não significa não prender, mas não congelar as pessoas ali, senão vamos criar inimigos, pois todo mundo já fez ações negativas. Novamente: isso não significa deixar de aplicar as leis e prender— temos de prender todo mundo envolvido, e são centenas, talvez milhares de pessoas, se fôssemos realmente investigar. Tal atitude Lama Padma Samten chama de “tolerância zero”:

“Tolerância zero é não deixar de ver. Compaixão é não permitir o êxito das ações negativas. Se pudermos evitar que uma pessoa tenha êxito em uma ação negativa, melhor. Melhor por quê? Não é que estejamos contra a pessoa ou que também tenhamos agora uma fixação à negatividade; não é isso, nós não estamos jogando um jogo. Se a pessoa tem êxito em ações negativas e as segue executando, ela fica fixada nessas ações e é difícil de tirar a pessoa dali. Precisamos protegê-la, evitando que haja sucesso dentro de ações que vão criar um ambiente super negativo para ela própria. Não deveríamos permitir que essas bolhas tenham êxito, isso é tolerância zero. Não é tolerância zero com a pessoa, não é falta de paciência, não é dureza, não é maldade, não é irmos para o inferno e atacar a pessoa. É tolerância zero com a bolha de realidade que está produzindo aquilo. Notamos aquilo: se temos capacidade de desarticular, desarticulamos; se não temos, registramos — não perdemos a oportunidade de registrar. Considero que esse ponto da tolerância zero está totalmente abandonado no tempo em que estamos vivendo agora. Uma época eu estava estudando a história do conhecimento em várias culturas, e vi algo interessante relativo ao pensamento chinês. Dizia-se que, no tempo em que o Taoísmo regia o Imperador na China, quando ocorria um crime, as pessoas não procuravam o autor do crime (na nossa linguagem isso seria caracterizar, fotografar, punir, etc), mas procuravam o ambiente (a bolha de realidade) que tinha permitido à pessoa fazer aquele tipo de ação. Como a pessoa achou que aquilo era favorável? Esse é o verdadeiro inimigo, vocês entendem? Se eu pegar uma pessoa, culpar, caracterizar e prender, aquilo vai seguir solto, pairando, vai pegar outro, outro, outro e aquilo ainda se expande. É a mesma coisa que colocar na cadeia todas as pessoas com dengue, enquanto a dengue continua fluindo. Estamos pegando a pessoa que foi vitimada e não o agente; o agente está no nível sutil. Vamos olhar como as ações não virtuosas estão pairando, estão totalmente disseminadas no nível sutil, na mídia em geral — reificadas, mostradas em detalhes. As pessoas adquirem esses referenciais, que viram os carmas delas mesmas; isso é um processo infeccioso. Mas se eu não vejo esse processo amplo, eu pego as pessoas que foram alcançadas pelas emoções negativas, eu culpo e condeno. Estamos longe de tolerância zero, estamos facilitando a disseminação da doença.”

— Lama Padma Samten

No entanto, achar que as pessoas que fazem isso não tem um coração é falta de compaixão nossa. Elas têm, já estão sofrendo (pra você mandar matar e pra matar você precisa estar alucinando) e uma hora vão sofrer muito mais justamente por causa disso: elas têm um coração. Não existem seres 100% malignos sem coração. É por isso que essa tragédia é tão avassaladora: ela é uma guerra entre irmãos. Isso faz com que tudo seja ainda mais triste. Se fosse só uma questão de gente boa x gente ruim seria até mais fácil. Mas não é.

O que é mais triste? Um alien descer e matar nossa filha ou ver nossa filha ser morta por seu irmão e parte da família? Ver tudo vindo da ignorância, que se manifesta em complexos jogos sociais e estruturas gigantescas de poder e autointeresse, ver a ignorância como o grande sofrimento nos leva a multiplicar por 10 mil nossa compaixão. Por quê? Porque toda essa dor poderia ter sido facilmente evitada! Aquela morte foi desnecessária, não precisava ter sido assim. Isso é angustiante.

Esse desejo “Meu deus, parem com essa guerra, não mais vamos nos matar, não vamos mais nos excluir, nos dividir, não vamos manter tanta desigualdade social, com uns tendo tanto e outros tendo nada, por favor, vamos viver mais em harmonia e igualdade… Como é que deixamos corporações e estruturas de poder matarem uma pessoa?”, isso é compaixão. E estamos todos com essa mente. Você pode aprofundar ou não, mas isso já é compaixão de saída. Compaixão não é um raciocínio ou algo que a gente sente, é nossa verdadeira natureza, completamente exposta ao sofrimento, completamente interconectada aos outros e interessada em tudo que é vivo, completamente confiante de que há saída e de que a transformação é possível.

Agora, justamente por isso, não podemos aceitar que um bando de homens com interesses essencialmente egoístas (não importa se no meio político, empresarial, militar etc) possam ter sucesso em acabar com a vida de uma mulher tão importante. A gente precisa se juntar e pensar em como jogar luz e desatar isso tudo, escancarar essas estruturas e tirar deles esse poder todo, como uma mãe que tira a faca da mão de uma criança. Ao mesmo tempo em que fazemos isso, para não cansarmos, é importante manter visão ampla: isso está acontecendo há muitos milênios e talvez a realidade seja ainda mais ampla, talvez haja algo que não estejamos vendo ao olhar para o sofrimento infinito gerado pela humanidade, cada vez de um jeito diferente e ao mesmo tempo bastante similar… Sem essa desconfiança, sem sabedoria, a gente vai focar no sofrimento e vai morrer afogado porque ele é incomensurável.

“Essa relação que nós podemos estabelecer entre nós baseada na compaixão, baseada na compaixão e nos valores elevados, é a base da sociedade e da vida. O processo econômico não tem a capacidade de ser fundador de um estado e de uma sociedade que protegem os seres, a natureza e as coisas.[…] É necessário revitalizar as redes humanas. Esse é o ponto. […] Se os tempos são sorridentes, a gente faz isso. Se os tempos são difíceis, a gente faz também a mesma coisa. A gente não tem outra coisa a fazer.”

— Lama Padma Samten (em uma palestra em Belo Horizonte)

A importância de apreciar a bondade do mundo e se relacionar pelas qualidades positivas

”Se você não está se alegrando com a bondade do mundo, você não está prestando atenção.”

— Alan Wallace (no capítulo sobre alegria do livro “Felicidade genuína”)

A alegria é guardiã da compaixão, ou seja, ela nos protege de perder a compaixão no contato com muito sofrimento. Tanto é que isso se manifestou espontaneamente em incontáveis pessoas e grupos durante o luto por Marielle Franco: muitas pessoas compartilhando visões esperançosas, falas compassivas e projetos benéficos de diversas outras pessoas. Foi uma apreciação mútua de nossa bondade.

“Eu não sabia quem era a Marielle até ontem. Eu que moro na internet. Mas Bolsonaro, Janaína e outras porcarias chegam na timeline todos os dias. Pq a gente espalha tanto lixo radioativo em vez de dar visibilidade a quem merece?”

— @jackie_mm no Twitter

“Pode-se falar da banalidade do mal (Hannah Arendt). Mas podemos também falar da banalidade do bem, evocando as mil e uma expressões de solidariedade, de atenção e de compromisso a favor do bem de outros que balizam as nossas vidas cotidianas e exercem uma influência considerável sobre a qualidade da vida social. Além do mais, aqueles que realizam estes inumeráveis atos de entreajuda e de solicitude dizem em geral que é plenamente ‘normal’ ajudar o seu próximo. […] A bondade de todos os dias é anônima; ela não ocupa o centro das atenções dos órgãos de comunicação como um atentado, um crime horrendo ou a libido de um político.”

— Matthieu Ricard (no livro “A revolução do altruísmo”)

Nessa semana, a prática do lugar é reconhecer e criar relações a partir das qualidades positivas da pessoas e dos movimentos benéficos ao nosso redor. Podemos aproveitar toda a situação complexa que estamos vivendo para encontrar mais e mais exemplos de bondade, exatamente onde parece haver só sofrimento e confusão. Na segunda, nos reunimos entre 60 pessoas (são cerca de 500 participantes, mas nem todos conseguem participar ao vivo) para conversar sobre como podemos aprofundar nesse processo no nível mais íntimo (não se relacionar pelos defeitos) e no nível mais social, equilibrando compaixão (foco no sofrimento) e alegria (foco na bondade, apreciação e relação pelas qualidades).

Caso contrário, vamos gerar uma sensação de que o mundo é cheio de pessoas negativas, estúpidas, desumanas — vamos nos deprimir com tal visão horrível da natureza humana sem perceber que essa é uma escolha nossa, de que não temos acesso direto a 8 bilhões de vidas, apenas a um punhado de notícias e comentários pontuais (alguns vindo de robôs, outros de adolescentes distraídos, outros de pessoas entediadas e aflitas).

Se estamos deixando o mundo na mão de alguns poucos adolescentes (Trump, Zuckerberg, para citar só dois…), talvez seja porque estamos olhando muito para eles e pouco para nós mesmos, para nossos sonhos, nossas qualidades e tudo o que podemos construir a partir da compaixão, até o momento no qual os seres mais teimosos não tenham outra opção a não ser abandonar a negatividade e se juntar a essa revolução sem inimigos — como adolescentes que enfim largam o videogame e se juntam aos adultos para jantar.

Podemos nos unir mais pelo sonho, pela alegria, pela bondade e menos pela crítica, pelo desespero, pela polarização. A ideia não é gerar um olhar cor-de-rosa sobre a complexidade das situações, mas experimentar dedicar nosso pouco tempo para localizar, se relacionar, estimular, divulgar a bondade ao nosso redor.

É importante dizer “Não!”, mas estamos dizendo “Sim!” para o quê? Estamos convidando as pessoas apenas para alguma oposição ou também para um sonho e uma construção coletiva?

Quer colocar isso em prática?

Se você quiser se juntar a uma comunidade que toda semana experimenta uma prática de transformação: olugar.org