um lugar
Não é exatamente café que desejamos

De tempos em tempos cerca de 60 mil seres humanos se acoplam em roda para observar a movimentação de 22 seres humanos entre linhas brancas. Sob o nome de estádio de futebol, tal estrutura configura um jogo capaz de modular emoções, expressões corporais, conversas, pensamentos, desejos e todo tipo de interação entre os seres. Ou, poderíamos dizer também, um modo de se relacionar estabelece um jogo, que se materializa em uma arquitetura capaz de sustentar tais mundos internos e convivências. Lugar e relação: processo circular, coemergente, de mútua causalidade, como na clássica litografia de Maurits Cornelis Escher, na qual duas mãos se desenham uma a outra.

Na loja nos relacionamos como consumidores, na praça como cidadãos, nas casas como parentes, nas empresas como funcionários, nos bares como amigos. Mas quase não há lugar para nos relacionarmos como pessoas, como parceiros que se acompanham na vida. Não é por acaso que temos tanta dificuldade para ser um cidadão consciente ou um bom chefe: antes é preciso se reconhecer como um ser livre. Um pai que é só pai, que se identifica totalmente com a operação mental e corporal de pai, tem poucas chances de ser um bom pai.

Não estamos acostumados com outras relações porque não há espaços que as encorajem. Pior: quase não edificamos lugares de encontro genuíno pois sequer sabemos o que seria isso. Pense como a dinâmica de uma mesa de bar limita nossas conexões: só ouvimos alguém por 15 minutos sem interrupção quando a pessoa têm a sorte de ser convidada para palestrar em um auditório. Em qual lugar da cidade conseguimos apenas ficar ali, parados, sem entretenimento, só com nós mesmos? Do jeito que nos estruturamos atualmente, as pessoas não param, nunca realmente chegam. Parece até estranho dizer, mas é verdade: a gente quase não se encontra mais.

A cultura da programação nos leva a tratar a cidade como uma grande TV. Pela internet escolhemos filmes, shows, cardápios, viagens. Saímos de casa, nos entretemos e voltamos. Nossa premissa: pessoas não são interessantes. Convide alguém para um lugar com pessoas e ouvirá algo como “Mas vai rolar o quê? Vai ter música?”.

Sonho com um lugar que não seja mais um bar, loja, centro cultural, somente um espaço de encontro não definido para quem quiser ouvir e ser ouvido, dançar, meditar, oferecer uma aula improvisada… Por que não deixar um lugar ser apenas um lugar? É tudo o que desejamos quando nos abarrotamos em cafés por aí.

Vai ficar rica a pessoa que abrir um lugar.