Nossa mente é contagiosa

por Gustavo Gitti

Deixamos abaixo um trechinho da fala de Gustavo Gitti na segunda semana do estudo online do livro Um coração sem medo, que oferecemos por 13 semanas na comunidade do lugar em 2017. A transcrição espontânea é do querido Paulo Carvalho — estava esquecida no fórum do lugar, mas resolvemos compartilhar agora também aqui no blog.

Thupten Jinpa fala que nosso estado mental é contagioso. Quando tem alguém irritado do nosso lado, parece que nada está acontecendo, mas a gente sente a irritação da pessoa, uma relação nasce daí e sem querer nós podemos nascer como um ser irritado também. Ficamos irritados com a irritação do outro.

A base da nossa mente pela qual nós damos nascimento aos outros — a nós mesmos e também a qualquer situação — é sempre compartilhada, transplantada para todo lado. Não porque existe um processo místico. É porque as pessoas nascem das relações. Nós não somos pessoas que têm relações, nós somos pessoas nascidas das relações. Nós somos relações.

Por isso existem lugares em que nos sentimos com várias qualidades e existem lugares em que parece que somos uns fracassados, sem qualquer qualidade. Às vezes eu entro em alguns lugares e penso: “Nossa, eu sou um merda completo, um inútil, não sei fazer nada aqui…” E tem lugares em que eu entro e “Nossa, que maravilhoso! Eu posso ser útil aqui, eles me valorizam, sou cheio de qualidades…” Tudo depende do espaço que foi aberto.

Lerab Ling, centro budista tibetano na França (Foto: Yacov Rosenblum, 2018)

Um espaço positivo é aquele que nos convida, que nos faz nascer a partir de nossa natureza mais profunda. É mais difícil brigar em um espaço assim. Não porque a gente não tenha a estrutura da briga… a gente tem, mas não é a partir dela que somos chamados a nascer.

Então, todo o estudo da compaixão vai nos ajudar a fazer um negócio muito mais poderoso: entender como cultivar espaços que tragam o melhor dos seres. Espaços abertos que façam os seres nascer a partir da compaixão e de outras qualidades. E não espaços que tragam o pior deles e depois nos levem a criticá-los como se aquilo fosse um problema individual e externo à cultura e à base de nossa própria mente.

Isso precisa da compreensão de que não há um centro do mal, como sempre ensina o Lama Padma Samten. Não existe um lugar que é de fato ruim ou pessoas de fato ruins. Existem espaços sutis diferentes onde elas nascem a cada momento.

Essa clareza é especialmente importante no mundo de hoje, pois não sabemos o que fazer com tantas ações destrutivas e seres aparentemente negativos por todo lado, todo santo dia. Sem tal comtemplação, nossa vontade é apenas prender, matar, eliminar tais seres.

Um jeito de curar uma comunidade inteira não é expulsar os malfeitores. É entender que a comunidade inteira está nascendo o tempo inteiro e a partir disso produzir espaços onde cada um de nós possa nascer de um modo positivo. Existem vários lugares que são laboratório disso, mas o ponto é a gente treinar, descobrir esse espaço, se tornar esse espaço e se relacionar a partir desse espaço. Esse espaço começa em nosso olhar, mas logo vira uma cultura, vira lugares, vira arte, vira lei, vira o mundo.

O que a gente tem de se tornar não é um ser bonzinho, mas uma base de relação na qual os outros inevitavelmente nasçam a partir de suas melhores qualidades. Quando essa base se torna extraordinariamente ampla, vamos chamá-la de compaixão.

Quer estudar compaixão em comunidade?

Se tiver interesse, todos os vídeos desse estudo estão disponíveis para quem entrar na comunidade. E atualmente estamos aprofundando em compaixão, dessa vez pelo estudo do livro À beira do abismo, de Roshi Joan Halifax. Ainda dá tempo de participar!