Kazuaki Tanahashi, montanhas, águas e a magia das palavras

por Lia Beltrão

Foi em um café na cidade de Brno, na Tchéquia, que eu finalmente encontrei o Sensei Kazuaki Tanahashi pela primeira vez, após cinco anos trabalhando para o projeto Reflorestar, idealizado por ele. Essa demora não se deu por falta de convite dele, nem por falta de vontade minha, mas pelas regras que determinam quem entra ou não no país onde ele mora. Enquanto a minha solicitação de visto para poder visitá-lo em sua casa, em Berkeley, era negada três vezes pelo Consulado dos Estados Unidos em Recife, Fábio Rodrigues, Geovana Colzani, Alice Fortes e eu fizemos dezenas de encontros on-line e constantes trocas de e-mails com o Kaz e, com uma rede de parceiros maravilhosos e uma comunidade de mais de mil doadores, plantamos mais de 12 mil árvores na Amazônia. Esta é a realização do sonho do Kaz de ajudar a mitigar as mudanças climáticas — uma ação humilde diante do avassalador da situação. Mas humilde, como ele fala — e como fui me convencendo ao longo do tempo —, é bom. É muito bom.

Eu não esperava que este encontro acontecesse. De fato, a possibilidade se abriu quase por acaso. Claire Greensfelder, co-diretora da Inochi, a organização fundada por Kaz e Mayumi Oda, comentou comigo que em breve o Kaz estaria na Europa. Eu estava passando uma temporada no Gomde Dinamarca, onde tenho tentado ir anualmente para encontrar meu professor, Erik Pema Kunsang. Claire não sabia bem onde o Kaz estaria, mas eu prontamente me animei para visitá-lo — para quem mora em países continentais como o Kaz e eu, qualquer distância dentro da Europa é pequena. No dia seguinte a esta conversa com a Claire, recebi este e-mail:

Querida Lia,

Como você está? Espero que esteja bem. Claire disse que você está na Dinamarca. Que maravilha! Ela também disse que talvez você me visite na Tchéquia. Estarei em Brno de terça-feira, 30 de junho, até 7 de julho. Se você puder vir, ficarei feliz em reservar um quarto no Hotel Continental e hospedá-la por duas ou três noites. Leva um tempo para chegar lá. Você pode voar para Viena e pegar um ônibus por cerca de uma hora até Brno. Estarei estudando Dogen com minha amiga Zuzana, especialista em Dogen, no escritório dela na universidade. Talvez possamos buscá-la em alguma estação de ônibus ou pedir que você pegue um táxi até o hotel. Podemos fazer todas as refeições juntos. Mas talvez eu passe a maior parte do tempo fora do hotel. De qualquer forma, eu adoraria vê-la e lhe mostrar a cidade. Me diga o que você acha.

Love,  

Kaz

Poucos dias depois, estava eu sentada em um café de uma cidade que jamais imaginei conhecer, esperando ansiosamente pelo Sensei. Ele e Zuzana não conseguiram me buscar na estação de ônibus porque muitas vias estavam em obras, então combinamos de nos encontrar no Bistro Franz, pertinho do Hotel Continental. Eu cheguei antes deles e, enquanto esperava, um pensamento se sobrepunha a todos os demais: iremos ou não nos abraçar? Este dilema é uma constante nos meus encontros com os dinamarqueses que, arrisco dizer, dividem com os japoneses uma certa resistência ao contato físico. Mas acho que, ao longo dessas minhas temporadas no Gomde, devo ter adquirido certa habilidade em identificar sinais muito sutis de que um abraço é ou não bem-vindo, porque, quando o Sensei entrou no café com seu passo lento, eu vi que ele não trazia resistência. Nos demos um abraço suave, quentinho e longo. Meus olhos se encheram de lágrimas: “This is a miracle, Kaz”. Isto é um milagre, eu disse. E ele sorriu. “Yes, it is”.

No dia em que cheguei, com Kazuaki Tanahashi, na frente do prédio da Universidade de Masarik (Brno, Tchéquia)

Montanhas e águas

Ali mesmo, na lanchonete, enquanto Kaz e eu comíamos um sanduíche, e Zuzana uma sopa de iogurte (sim, isso existe nesta parte do mundo), ele falou do trabalho que veio fazer em Brno: “Estamos trabalhando no Sutra Montanhas e Águas“. Ele levantou o braço no ar e disse: “Mountains ride in the clouds, that’s what Dogen said”/ “Montanhas cavalgam sobre as nuvens, é o que Dogen disse”. Em outro momento, ele falou: “Estamos aqui graças a Dogen”.

Apesar de, no e-mail dele, eu ter entendido que nos encontraríamos apenas nas refeições, ali mesmo os dois me convidaram para me juntar a eles enquanto trabalhavam. Zuzana Kubovčáková é professora do Departamento de Estudos Japoneses da Universidade de Masaryk, e é em seu escritório, com uma enorme janela com vista para uma árvore frondosa, que ela e Kaz passavam horas trabalhando todos os dias. Me chamou atenção que, ainda que o Kaz tivesse chegado dos Estados Unidos há poucos dias, havia uma calma na rotina de trabalho dos dois que me dava a sensação de que eles estavam há décadas repetindo o mesmo roteiro: Zuzana buscava o Kaz no hotel às 8h30 da manhã, onde ele já estava esperando no lobby; eles caminhavam juntos até o prédio da universidade, que ficava a poucos minutos dali; trabalhavam até cerca de 12h30; caminhavam ou iam de carro até um restaurante; depois do almoço, Kaz descansava no hotel por um par de horas; Zuzana o buscava novamente no hotel — ele sempre esperando no lobby; eles trabalhavam na universidade até a hora do jantar, quando iam comer em algum outro restaurante; o Kaz sempre pedia um chopp; depois, Zuzana o deixava de volta. “Boa noite, Sensei.” “Boa noite, Zuzana. Vejo você às 8h30”.

O que estava se construindo em meio a essa rotina plácida era um trabalho grandioso. O Sutra Montanhas e Águas foi escrito por Dogen no século XIII e é possível lê-lo em inglês no livro Treasure of the Dharma Eye, publicado pela Shambhala, com tradução do próprio Sensei Kaz. Este livro contém os mais importantes sutras e ensinamentos do Mestre Dogen e, entre eles, há alguns casos raros em que é possível encontrar o manuscrito do sutra escrito pelo próprio punho de Dogen. O Sutra Montanhas e Águas é uma dessas raridades. O manuscrito original data de 1240 e está protegido no Templo Eihei-ji, em Fukui, no Japão. O livro no qual Zuzana e Kaz estão trabalhando trará as imagens do manuscrito, sua transcrição, sua transliteração fonética e sua tradução para o inglês. Página por página.

Observar os dois debruçados sobre a caligrafia de Dogen, ver forma e conteúdo sendo igualmente reverenciados, foi um presente que jamais esquecerei.

“But language is magic” 

Fora do escritório, à mesa das refeições, os assuntos eram os mais variados. Como Zuzana não conhecia quase nada a respeito do projeto de reflorestamento, tive a oportunidade de contar para ela sobre os Puyanawa e seu processo de retomada, sobre o lugar e o que fazemos, sobre a minha conexão com o budismo e o que havia me trazido para a Dinamarca. Mas, claro, estar ali com o Kaz implicava eu tentar aproveitar cada momento possível para falar sobre dois projetos nos quais estou envolvida: o Reflorestar e a publicação de seu livro Arte pela Vida, pela Editora Bodisatva.

Ainda que estivesse sem microfone (espero não mais cometer o erro de viajar novamente sem ele), decidi aproveitar a oportunidade para entrevistá-lo sobre o livro, sobre a Amazônia e sobre o que, aos 92 anos, ele vislumbrava para o futuro do nosso projeto. E, sobre esta última pergunta, surpreendentemente, a direção que ele apontou foi a da linguagem.

Ele disse: “Temos que encontrar uma linguagem que faça com que as pessoas sintam que essas árvores são delas.” E acrescentou: “A linguagem é mágica.”

Quando ouço essa resposta do Kaz à uma pergunta sobre o futuro do projeto, entendo duas coisas. A primeira é que ele está nos ensinando que toda transformação duradoura começa antes de tudo no campo da consciência, na maneira como percebemos, nomeamos e nos relacionamos com o mundo. Para o Kaz, dizer que a linguagem é mágica não é uma metáfora vazia nem uma defesa ingênua das palavras. É reconhecer que elas moldam a imaginação, abrem ou fecham possibilidades, criam vínculo, despertam responsabilidade. Uma mudança sutil de linguagem pode alterar o modo como alguém se vê dentro de uma comunidade, dentro de uma paisagem, dentro de uma causa. E, quando essa percepção muda, algo mais profundo começa a se mover — devagar, talvez, mas de forma irreversível.

A segunda coisa que eu entendo é que ele acredita incansável e incessantemente na transformação — na ideia de aqui, agora, através deste projeto humilde, é possível construir um outro mundo. Há uma frase famosa de Angela Davis que diz: “Você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo.” Aos meus olhos, esta é a realização do Sensei Kaz. Como tradutor ou como ativista, Kaz nos lembra que há uma força invisível — e, ao mesmo tempo, imensa — naquilo que nomeamos, naquilo que dizemos, naquilo que compartilhamos. Talvez seja assim que a transformação começa: quase sem fazer barulho, pela consciência que se desloca, pelo sentido que se reordena, pela possibilidade que passa a existir onde antes havia apenas limite. Exatamente como as montanhas de Dogen, que voam no céu.

Hotel Continenal, em Brno: Kazuaki Tanahashi, Lia Beltrão e Zuzana Kubovčáková.

Este encontro completamente milagroso apenas foi possível graças a uma rede infinita de seres, mas gostaria de agradecer especialmente a um deles: Fábio Rodrigues — sem o convite dele lá em 2021, essa aventura não teria começado para mim. Minha aspiração pessoal é que eu possa retribuir tantos presentes recebidos, que essa confiança que o Sensei Kaz manifesta, a confiança de que o mundo pode ser de outro jeito e que ele é mágico, cresça em meu coração e que muitas, muitas mais árvores possam ser plantadas na Amazônia e além! É minha aspiração também que você pode estar junto!

Para doar, acesse: olugar.org/reflorestar