A partir de agosto vamos estudar em comunidade o novo livro de Elizabeth Mattis-Namgyel, A lógica da fé, inteiro dedicado à contemplação da interdependência, tão crucial para nosso momento atual — veja aqui todas as informações para participar. O último capítulo de seu primeiro livro, O poder de uma pergunta aberta, é um convite perfeito para mergulharmos em seu segundo livro. Com autorização da editora Lúcida Letra, deixamos abaixo esse texto na íntegra.

Philippe Petit, equilibrista francês

Em uma manhã, enquanto caminhava pelo Central Park, em Nova York, indo em direção ao centro e ponderando sobre a importância da fé, vi uma grande igreja. Em frente à igreja havia um enorme banner cor violeta com letras amarelas onde se lia:

“Andamos por fé e não pelo que vemos”

[2 Coríntios 5:7, palavras de Paulo]

Não conheço a fundo as interpretações cristãs dessa citação. E não sei o quanto ela significou para seu autor. Mas para mim significou muito.

Quando vivemos a vida como uma pergunta aberta, nós conseguimos a informação de que precisamos… mesmo que seja em um gigantesco banner. Agora, se isso é a vida dando uma resposta à nossa pergunta aberta ou apenas nós despertando para o mundo ao redor, eu não sei. Mas estou começando a ter fé de que isso acontece desse modo.

Será que a lama Elizabeth Mattis-Namgyel conhece esse clássico do Gil?

Andando pelo que vemos

Todo mundo deseja fé, não é? O que poderia ser melhor? Fé faz a vida despreocupada, simples e significativa. Infelizmente a fé não é tão fácil de se encontrar. Isso porque nós andamos de acordo com o que vemos.

Quando andamos pelo que vemos, nós tomamos as coisas por seu valor aparente, o que significa que deixamos o mundo das aparências nos guiar. Confiamos na natureza imprevisível e irreparável das coisas. Agora, será que algo ambíguo por definição, aberto à interpretação, temperamental, enganador ou mutável pode ser considerado confiável? Eu acho que não. O máximo que nós podemos esperar do mundo das aparências é lidar com ele com ansiedade, esperança e medo.

Meu querido e impetuoso amigo Juan Carlos costumava dizer que os ensinamentos sobre a natureza não confiável e sem fronteira das coisas o faziam se sentir… sem chão. Obviamente ele estava apenas dando voz a uma experiência pela qual todos nós já passamos em relação à incerteza da vida. Juan Carlos – e, assim espero, a maioria de nós – amadureceu ao longo dos anos. Ele constituiu família, observou os filhos crescerem e já provou um bom pedaço da vida. Eu não diria que ele já está farto; Juan Carlos tem bastante interesse pela vida. Mas a maturidade vem quando testemunhamos a natureza não confiável das coisas – bastante envelhecimento, doença, morte e desapontamento – e, acima de tudo, quando realizamos que não há nada mais assustador e mais “sem chão” do que confiar naquilo que não é confiável.

Vamos assumir, então, que nós nunca sabemos o que vai acontecer a seguir – não sabemos o que está do outro lado – e, quanto mais cedo aceitarmos essa realidade, melhor. E com isso eu não me refiro apenas a “encarar os fatos”. Acredito que nós podemos gostar de viver desse modo, não acham? Estar curioso, maravilhado, encantado, estupefato… não teríamos nada disso se já soubéssemos o que iria acontecer em seguida. Não teríamos nenhum “ahhh” e nenhuma surpresa. Nós perderíamos o desafio de tentar desvendar nosso próprio mistério pessoal, não cresceríamos, não haveria mais perguntas abertas para ponderar – nenhum koan com o qual brincar. De fato, a vida seria inerte. Alguém gostaria disso? Duvido. Melhor, então, andar pela fé.

Andar pela fé

Andar pela fé é como uma súplica – uma oração. Suplicamos quando nós não sabemos o que fazer, quando por meio de uma investigação profunda desistimos de ter esperança no inconsertável mundo das coisas, quando sabemos que não há mais para onde ir. Quando chegamos a este ponto, nos encontramos em uma situação similar à do Buda quando ele esgotou todas as visões e sentou com a mente completamente aberta sob a Árvore Bodhi. O gesto do Buda de sentar debaixo da Árvore Bodhi nesse estado sem visão foi um apelo – uma súplica por um modo maior de ser.

Comumente, quando nós pensamos em fé, pensamos em ter fé em algo. Mas isto seria como andar pelo que vemos, não seria? Então, há uma virada aqui na história do Buda. Pelo seu exemplo aprendemos que a qualidade da ausência de fronteiras – o modo maior de ser – não é algo no qual podemos ter fé. Não é objetificável ou encontrável. Não é algo que se possa afirmar nem que se possa negar.

A fé é a mente de uma pergunta aberta. E, quando fazemos uma pergunta aberta, nós não recebemos algum tipo de resposta estática. Não chegamos a um destino final ou obtemos uma conclusão definitiva à qual podemos nos agarrar e dizer: “É isso!”. Fé é uma experiência, um modo de estar na vida, que vem de uma mente que não chega a conclusões sobre o mundo das coisas. Então, em essência, permanecer em um modo maior de ser sem desistir é o que significa andar pela fé.

Talvez você ainda ache que a fé deixa você em uma situação delicada, um pouco à deriva. Mas, se você se mantém nesta prática, a prática de andar pela fé, você pode se surpreender. À medida que todas as suposições convencionais que você tem sobre o mundo – todas as esperanças e medos, todo exagero e negação – começarem a desmoronar, você encontrará uma certeza inabalável. Essa certeza é a fonte da confiança, da inteligência, da criatividade, e ela sustentará você. E, assim como os grandes seres do passado, presente e futuro, você irá desfrutar de uma fluida, vibrante e dinâmica parceria com o mundo.

Agora, se esta plenitude é mesmo o que você procura, a cada momento pergunte-se: Eu posso permanecer presente em meio à possibilidade ilimitada? Eu posso relaxar com o maravilhamento? Eu posso viver minha vida como uma pergunta aberta?

Trecho do livro O poder de uma pergunta aberta (para adquirir o livro, recomendamos que compre diretamente no site da editora Lúcida Letra).

Elizabeth Mattis-Namgyel está há 35 anos imersa no caminho budista, sob orientação de Dzigar Kongtrul Rinpoche. Com formação em Antropologia, seu aprendizado está ancorado na prática, tendo completado sete anos de retiro solitário. Elizabeth tem especial conexão com o aspecto de sabedoria dos ensinamentos — originação dependente e vacuidade. Como professora budista, oferece palestras e retiros nos Estados Unidos, na Austrália, na Europa e recentemente no Brasil também.

Grupo de estudo online sobre interdependência

Do colapso ambiental à desigualdade social, do racismo ao negacionismo, todos os nossos problemas atuais surgem de ignorarmos a realidade da interdependência. Esse é o tema, ainda mais em nosso tempo. E é raro encontrar um livro apenas sobre isso — com práticas!

Nos últimos três anos, com mais de 900 pessoas de todo canto do Brasil e do mundo, estudamos juntos os livros Um coração sem medo (Thupten Jinpa), O poder de uma pergunta aberta (da própria Elizabeth Mattis-Namgyel) e Quando tudo se desfaz (Pema Chödrön).

Dessa vez, vamos nos debruçar por 14 semanas em um livro que integra e aprofunda tudo o que exploramos nesses estudos anuais: A lógica da fé, de Elizabeth Mattis-Namgyel. Começaremos em agosto, dentro da nossa comunidade online!

Se quiser participar, todas as informações estão aqui: olugar.org/fe