Você está se divertindo com amigas e recebe uma mensagem com traços sutis de ciúme. Muitos não percebem, mas esse é um momento precioso! Você pode responder como se o outro fosse mesmo um ser ciumento e controlador ou pode observar que ciúme e controle não são tão sólidos quanto parecem, são só a face confusa de uma natureza bondosa, momentaneamente inábil e incapaz de reconhecer a si mesma.

Se você responde “Para de me controlar!”, você está falando com quem? Ora, com o próprio controle. E quem é que está falando em você? O mesmíssimo controle. Talvez esse monólogo em dupla demore horas… Enquanto o controle fala com o controle, vocês acham que estão falando, mas estão amordaçados.

mente desperta
Há sempre uma mente desperta por trás | Cena de “Alive Inside” (dá para assistir o inteiro no YouTube)

Quando mantemos uma visão elevada do outro, surgem várias possibilidades de ação, mas o crucial é manter a visão — se nossa visão se perturbar, qualquer ação só prolongará o jogo aflitivo. Nesse caso, uma possibilidade é não responder, não deixar que o ciúme se estabeleça como um mediador do diálogo de vocês. Outra possibilidade é brincar, convidar a região da mente do outro que não leva a sério o que ele mesmo escreveu. Outra é estabelecer um limite e deixar que o outro se reequilibre sem depender de você, como se dissesse: “Você consegue lidar com o ciúme, eu também tenho às vezes. Se precisar de ajuda, ligue para algum amigo, não posso seguir a conversa agora por aqui.” Outra é soltar a fixação na mensagem do outro e depois de algum tempo enviar uma mensagem não-causal, do zero, não como uma reação, introduzindo uma relação com outra base: “Aqui está uma delícia! Você vai adorar conhecer tal pessoa…”.

Quando converso sobre isso com as pessoas, alguns dizem que o outro ficaria ainda mais perturbado ao receber essas mensagens. Mas isso é uma conclusão apressada, como se o outro fosse mesmo um ser demoníaco que deseja o nosso sofrimento. O outro pode a qualquer momento se alegrar com nossa alegria, então por que não manter esse convite aberto? Já vi tal diálogo acontecer algumas vezes. Não importa se ele vai levar algum tempo para soltar a negatividade, você solta antes — e já se comunica com aquele que eventualmente vai se equilibrar e sorrir. A paciência vem de não confundir a pessoa com o lugar onde ela está fixada.

Quando confrontamos o outro dizendo “Por que você sempre fecha a cara?”, a quem estamos nos referindo? Estamos convocando o próprio fechamento. O que nos confunde é que cada impulso, cada emoção, cada hábito, cada teoria diz “eu”. Eles não são a mesma coisa, mas todos dizem “eu”. Então nós acabamos envelopando até mesmo tendências contraditórias dentro de um guarda-chuva chamado “eu” e de outro chamado “você”, ainda que não sejamos nada disso.

Pode observar: aquele impulso noturno que se propõe a acordar cedo não é o mesmo que surge em você pela manhã. É como se fossem pessoas diferentes. Agora imagine a confusão que é quando esses impulsos começam a se relacionar entre dois seres. Nós nunca nos relacionamos com uma pessoa; nós nos relacionamos com infinitas qualidades positivas e infinitos impulsos, crenças, tendências, hábitos, emoções que vão capturando a pessoa diante de nós. Por isso, para não se perder, é melhor convidar a liberdade do outro, sempre disponível por baixo de qualquer tendência que o capture momentaneamente.

Do mesmo modo, quando ouvir “Você é muito chato com minhas amigas!”, você não precisa se sentir xingado — quem se sente xingado é o próprio chato. Provavelmente a pessoa está apontando alguma chatice com base em um comportamento passado ou talvez em alguma projeção. Mesmo se estiver correta, está vendo um fantasma. Você não é isso agora, então não responda como um chato, não ache que ele está falando com você. Você pode até concordar e ajudá-la a descrever o quanto você realmente foi chato. Ao fazer isso, você se aproxima da mente que vê a chatice como chatice — e essa mente não é nada chata. Isso é completamente diferente de dizer “Eu não fui chato!”. Ora, se o outro disse que você foi chato, você apareceu como chato, logo você foi chato. A chave é não se identificar com esse que foi chato.

Ao apontar a sua chatice, talvez por inabilidade, a pessoa provavelmente também vai aparecer como chata para você. Se você apontar os dedos (“É você que está sendo chata agora, querendo que eu seja de outro modo com suas amigas…”), a coisa só vai piorar. O problema não é alguém, o problema é se relacionar a partir da mente da chateação: você achou as amigas chatas e foi chato com elas, sua namorada o achou chato e está te chateando com isso… É um jogo que transforma todo mundo em chato!

Na verdade, a reclamação do outro é um pedido compassivo, ainda que misturado com perturbações emocionais: “Você não precisa ser assim, você pode fazer diferente”. Sabendo disso, você tem escolha: em vez de receber a fala do outro como um ataque, você percebe sua bondade em tentar apontar isso para você. Quando você se relaciona com essa bondade, você o faz a partir da bondade em você. Convidar as qualidades positivas do outro é inseparável de manifestá-las em nós mesmos diante do outro.

Podemos nos relacionar a partir de um espaço mais livre, em vez de cair em jogos aflitivos e limitantes. Podemos convidar as qualidades, não os obstáculos. Se a pessoa manifesta 29 ações negativas e uma positiva, reforçamos a positiva. Assim essa qualidade se sentirá olhada e será a base de nossa conexão — quando fizer novamente aquela ação, talvez ela lembre de nós e envie uma mensagem para nos alegrarmos. Vai sobrar pouco tempo para as ações negativas.

Como a posição do outro é misteriosa, se você puder escolher entre imaginar que o outro vai surtar e visualizar o outro não surtando, escolha a segunda opção: o outro tem a capacidade de chegar nessa presença descomplicada, o outro é uma mente livre. Dê nascimento elevado, diga “oi”, convide e se relacione com o ser mais poderoso de cada pessoa. Essa mente ampla está lá esperando por isso.

E quando a confusão é maior?

Em casos de relações abusivas (com ou sem violência corporal), às vezes a natural bondade do outro está bastante encoberta por padrões ensandecidos. Portanto, para convidar a mente ampla às vezes é preciso começar bloqueando a loucura, não deixando que o outro consiga nos ferir—algo que não apenas é sofrimento para quem é agredido, mas também para quem agride.

Uma fala que toca precisamente nesse ponto eu ouvi ontem, de Lama Tsering:

“Amor e compaixão sempre vão te ajudar. Às vezes as outras pessoas estão bem bagunçadas, podem ser nocivas, podem ser agressivas. Nesses casos, você provavelmente deveria evitá-las. O nosso problema, como seres humanos, é: o que nós fazemos é o que nós recebemos. Quem estiver praticando violência vai experienciar um mundo muito violento. Então isso significa que não é bondoso deixar que o outro seja bem-sucedido em ser violento com você. Ele não deveria ter êxito nisso porque isso vai prejudicá-lo.

Não é sobre você, é sobre eles. Se eles são realmente negativos, nocivos, agressivos, seria melhor que você não se envolvesse nessa situação, pois isso é melhor para eles, para que eles não tenham a oportunidade de ter êxito com sua agressão.

É por isso que às vezes é, de fato, amoroso e bondoso ir embora. Isso não significa: “Eu não gosto de você, estou cansado de você, você não é bom para mim, vou acabar com tudo, tchau!”. Não estou falando disso. Estou falando de quando você precisa ir embora, porque caso contrário será pior para eles. Nesse caso, é bondoso ir, é apropriado ir, é necessário ir.”

—Lama Tsering (vídeo do ensinamento completo)

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