Sementes que viajam — Relato de visita aos territórios Nukini e Puyanawa

por Lia Beltrão

Uma das palavras mais lindas da língua portuguesa, na minha opinião, é “viveiro”. Acho até que as definições do dicionário — “lugar apropriado para criação e reprodução” ou “lugar próprio para a semeadura de plantas” — não fazem jus à poesia da palavra. Viveiro parece mais uma palavra inventada por Manoel de Barros, que poderia talvez aparecer em seus poemas ao lado de “coisário”, “deslimite” ou “insetal”.

Meu apaixonamento recente por viveiros vem acompanhado de um encantamento maior e mais antigo: o encantamento pelos povos indígenas e por sua visão naturalmente inclusiva, por sua generosidade, que tenho conhecido nos últimos anos — graças às maravilhosas derivações do meu trabalho aqui no lugar, que me levou até a Inochi.

Lembro-me de uma fala que ouvi na primeira vez em que Guilherme Valadares e eu fomos, como representantes da Inochi, à Terra Indígena Puyanawa. Puwe, atual coordenador local do nosso projeto, mas, naquele momento, apenas um potencial parceiro, nos disse:

“Nosso sonho é reflorestar aqui e ensinar os vizinhos a fazer o mesmo. Não adianta nada a gente estar bem e ter comida se os outros não têm. Todo mundo tem que estar bem.”

O projeto ainda não havia começado. Não tínhamos dinheiro nem havíamos plantado uma única muda, mas a visão já era, na nossa linguagem budista, a de beneficiar os outros.

Nos quatro anos que se passaram desde aquela primeira visita, aventuramo-nos junto com os Puyanawa e com uma comunidade inteira de não indígenas, curiosos pelo budismo e movidos por um grande amor pela Terra. Conseguimos arrecadar mais de 800 mil reais — somando as duas campanhas — e plantar mais de 12 mil árvores em Sistemas Agroflorestais.

O Centro Ewe Pidu, ou Ninho do Beija-flor, epicentro do nosso projeto de reflorestamento. Agosto de 2026.

Por meio das conversas entre a Aliança Reflorestar, nossa maravilhosa parceira técnica, e o Centro Ewe Pidu, coordenado por Puwe e Varí Puyanawa, demos, em 2026, um passo na direção da expansão desses benefícios: o Projeto Semente Nukini. É aí que a palavra “viveiro” entra na história.

Os Nukini

O projeto de construção de um viveiro de mudas, em parceria com as lideranças da Aldeia Recanto Verde, na Terra Indígena Nukini, foi chamado de Semente Nukini pela Aliança Reflorestar por um motivo: à medida que os Sistemas Agroflorestais junto aos Puyanawa começaram a ganhar força e autonomia, tornou-se possível dar os primeiros passos em projetos de regeneração da terra com povos vizinhos.

A escolha de trabalhar com a Aldeia Recanto Verde e com os Nukini foi natural. Primeiro, porque são nossos vizinhos. A Terra Indígena Nukini fica ali mesmo, em Mâncio Lima, na região do Alto Moa, e compartilha conosco essa mesma floresta que queremos ver viva, fértil e protegida.

Além disso, assim como os Puyanawa, os Nukini vivem um processo de retomada cultural e espiritual, que implica também o resgate de suas práticas de cuidado com a terra. Entre as cerca de oito aldeias da Terra Indígena Nukini, a Recanto Verde vinha se destacando nesse processo: fortalecendo seus sistemas agroflorestais, recuperando áreas degradadas, produzindo mudas e sementes e pensando em formas de cuidar do território a partir dos próprios conhecimentos e modos de vida Nukini.

Assim, quando começamos a conversar sobre uma parceria em ações de regeneração, não sentimos que estávamos levando uma ideia até eles, mas encontrando uma semente que já estava ali — e que poderia, com um pouco de água, cuidado e parceria, começar a germinar.

Em março de 2025, reunimo-nos com um grupo da Recanto Verde. Foi então que Xîtî Nukini, cacique da aldeia, nos transmitiu o desejo da comunidade: construir um novo viveiro para substituir o antigo, que já era pequeno e tinha uma estrutura precária. Dissemos sim.

Kapá Nukini
Fátima Nukini
Iri Nukini

Demorou cerca de um ano até arrecadarmos todo o valor necessário para o Semente Nukini. Vale uma observação: nosso projeto depende inteiramente de doações de pessoas como eu e você. A cada real doado, nossa parceira Natureza Karuna, representada por Julio Vedana e Marina Wille, oferece mais um real.

Pouco a pouco, à medida que o dinheiro chega, entramos em novas etapas. Agora mesmo, estamos na última: faltam apenas 15 mil reais para garantirmos a manutenção dos Sistemas Agroflorestais na TI Puyanawa até 2028. Por isso, sua doação continua sendo muito importante.

Assim que o recurso chegou, a Aliança Reflorestar articulou com Xîtî Nukini a construção do viveiro. Foram cerca de três semanas de trabalho, e mais de vinte pessoas da própria comunidade participaram do mutirão para deixá-lo pronto.

A Aliança Reflorestar planejou esta visita técnica para conhecer o viveiro, ouvir, no local, como havia sido sua construção e, obviamente, conversar sobre os sonhos e os próximos passos. Juntei-me à equipe técnica, celular na mão, compartilhando relatos do dia a dia da viagem com o grupo de doadores do projeto — algo que já se tornou uma tradição e um deleite para mim. Também tive a responsabilidade de registrar depoimentos para a comunicação futura do projeto.

Viveiro de medicina

Para chegarmos ao viveiro, foi preciso percorrer um longo caminho. A TI Nukini está localizada a cerca de seis horas de barco da cidade de Mâncio Lima. É uma viagem deslumbrante. Durante praticamente todo o percurso, tudo o que vemos é água, floresta e seus muitos, muitos seres.

No caminho serpenteado do rio, a cada curva encontrávamos um pássaro, uma borboleta, um boto, uma tracajá — espécie de cágado de carapaça negra e amarela, verdadeiro símbolo das águas amazônicas.

Encontrar os humanos ao desembarcar na Aldeia Recanto Verde não diminui o encanto do percurso. Durante os dias na TI Nukini, tivemos os melhores anfitriões: Kapá, Fátima e Iri Nukini nos receberam com fogueira, canções tradicionais e uma defumação com ervas e resinas da floresta, ao lado do Kupichawa, uma linda construção de madeira e palha destinada aos rituais e às práticas espirituais da aldeia.

Quando o sol nasceu, foi o momento de caminhar pela aldeia e visitar o viveiro.

Nesse caso específico, caminhar pela aldeia já é caminhar por uma área reflorestada. Quando a Recanto Verde surgiu, há cerca de 16 anos, a área que hoje vemos coberta de árvores era completamente descampada — um espaço destinado à criação de gado e a outras atividades que empobreceram o solo.

Quando Xîtî e outras pessoas sentiram a necessidade de criar uma aldeia — processo natural entre povos indígenas dentro de um mesmo território —, fizeram algo diferente do que normalmente se faz: em vez de derrubar árvores para abrir clareiras e construir casas, chegaram plantando.

É um caso incontestável de como a presença humana pode aumentar a biodiversidade, em vez de ameaçá-la.

O viveiro veio para apoiar esse movimento. Iri contou-me que uma estrutura como a que construíram tem capacidade para cerca de 10 mil mudas por vez. E cada muda, ali, não é vista apenas como uma árvore, mas como medicina.

Quando entrevistei Fátima Nukini, artesã e uma das importantes lideranças da Recanto Verde, perguntei:

— Quais são as árvores medicinais que vocês pretendem plantar aqui neste viveiro?

Ela pareceu levemente confusa com a pergunta e, finalmente, respondeu com convicção:

— Tudo é medicina. Tudo na floresta tem algum poder de cura e nutrição para nós.

Viveiro de mudas, Aldeia Recanto Verde, Terra Indígena Nukini.
Equipe e comunidade da Recando Verde reunida.

Nossa intenção, como parceiros, é expandir o que a Recanto Verde já está fazendo: coletar sementes e cultivar mudas, pois foi dessa maneira que eles reflorestaram a própria aldeia.

Estamos potencializando essa ação. Neste primeiro momento, com o viveiro, que oferece a estrutura necessária, incluindo um sistema completo de irrigação para a época da seca. Em um segundo momento, esperamos poder apoiá-los no processo de coleta de sementes.

A TI Nukini está localizada em uma das regiões mais biodiversas do planeta. Faz parte da visão de regeneração da comunidade coletar sementes em áreas de floresta mais protegidas do território, para produzir mudas que possam ser distribuídas a outras aldeias Nukini e também a outros lugares.

Para isso, são necessários equipamentos específicos, capazes de alcançar sementes em árvores altas, comuns na região amazônica. Kapá, uma das lideranças Nukini e também um de nossos anfitriões nesses dias, é técnico agroflorestal e tem formação específica para esse tipo de trabalho.

Saímos da Recanto Verde com uma verdadeira sensação de começo — um começo bom, afetuoso e firme.

Ninho do Beija-flor

Para a segunda parte da viagem, descemos o Rio Moa em direção à Terra Indígena Puyanawa. O objetivo da visita era acompanhar o desenvolvimento dos Sistemas Agroflorestais implantados.

Fotografia de Thomaz Callado

Nina Arouca, bióloga que recentemente se tornou vice-presidenta da Aliança, acompanha esse trabalho desde que as primeiras mudas foram colocadas no solo. Dedica seus dias a contar mudas, avaliar seu crescimento e identificar eventuais necessidades de replantio.

Desta vez, não apenas Nina, mas todos nós ficamos muito impressionados com o progresso do plantio realizado em um mutirão com mais de 80 crianças e adolescentes da Escola Estadual Indígena Ixubãy Rabuy Puyanawa, em março de 2025.

Menos de 18 meses depois, as árvores estão enormes, oferecendo sombra e se desenvolvendo muito mais rapidamente do que as do primeiro plantio. Talvez seja a força das crianças e dos adolescentes, que penetrou nesse solo e ofereceu um adubo a mais. Quem sabe?

O ninho de suiriri que encontramos em uma das árvores plantadas em março de 2025 pelas crianças da Escola Escola Estadual Indígena Ixubãy Rabuy Puyanawa se tornou local de visitação.

Nesta visita, além de Alice Fortes, Nina Arouca e eu, nossa equipe técnica contou também com Thomaz Callado, biólogo, ornitólogo e fotógrafo de vida selvagem. Thomaz se ofereceu para realizar um levantamento de fauna, documento científico que poderá servir como marco para o monitoramento do impacto das áreas de plantio sobre o aumento da biodiversidade.

Para poder fazer seu trabalho, Thomaz contou com a ajuda imprescindível de Fabrício Puyanawa, atualmente responsável pela manutenção do nosso plantio. Juntos, os dois instalaram câmeras de monitoramento — as chamadas camera traps — em diferentes fragmentos de floresta, alguns mais próximos e outros mais distantes da área plantada.

A intenção é comparar os dados e verificar se, ao longo do tempo, aumenta a incidência de animais nas áreas próximas ao plantio. Neste momento, Thomaz está produzindo o relatório. Mas, para se ter uma ideia, nos quatro dias em que esteve na Terra Indígena Puyanawa, ele observou 102 espécies de aves. 

A presença de Thomaz no grupo acabou nos aproximando mais dos seres não humanos, que viraram rapidamente o principal assunto nas conversas durante as refeições, quando ele compartilhava fotos de inúmeras espécies de pássaros, répteis, mamíferos e outros animais cuja casa era a mesma que a nossa naqueles dias, a floresta.

Jacaretinga no açude em frente ao Ninho do Beija-flor. Foto de Thomaz Callado.

Um casal de periquitões. Foto de Thomaz Callado.
Macaco-de-cheiro. Foto de Thomaz Callado.

Logo que chegamos, as crianças avistaram um jacaretinga, que estava ali mesmo, no açude em frente ao Ninho. Capturado pela lente super potente da câmera de Thomaz, os detalhes do bicho, com os olhos amarelos gigantes e todos os dentes à mostra, deram para mim um novo nascimento ao açude. Muita vida ali naquelas águas! E assim foi acontecendo com outros seres, que foram se multiplicando no seu arquivo de fotos. E quando a lente não capturava, a gente ouvia a história do encontro, como foi o caso com o tamanduá-bandeira, que Fabrício e ele encontraram durante a instalação de uma das câmeras e que Fabrício confessou depois ter tido como primeiro pensamento a possibilidade de que fosse um lobisomem.  

Equipe reunida no último dia da viagem. Ninho do Beija-flor.

Sementes que viajam

Como companheiro de viagem, levei comigo o livro de Stefano Mancuso, A incrível viagem das plantas. Nas primeiras páginas, ele expõe nossa ignorância sobre as plantas dizendo: “Ninguém as respeita, são pouco estudadas, não sabemos nem remotamente quantas são, como funcionam, quais suas características. No entanto, sem elas a vida de nós, animais, não seria possível.” Ao longo da leitura, através de muitos exemplos incríveis sobre como diferentes espécies se espalharam pelo planeta, vamos aprendendo sobre suas formas de se comunicar, suas sofisticadas relações sociais e, sim, sua capacidade de se deslocar.

Talvez, neste projeto, estejamos nos colocando à disposição dessa mesma capacidade de deslocamento das plantas — de encontrar caminhos, ocupar novos espaços e criar condições para a vida. Uma semente nunca é apenas uma semente: carrega consigo a possibilidade de uma floresta inteira, mas precisa viajar, encontrar solo fértil, receber cuidado e contar com uma rede que favoreça seu crescimento. Assim também acontece com as ideias, os encontros e as parcerias que aproximaram Puyanawa, Nukini e todos nós: o que começou como um gesto de cuidado em um território pôde se espalhar, criar raízes e florescer em outros lugares.

E assim como as plantas, também temos sido bem sociais, agindo em comunidade uma vez que nada disso teria acontecido sem a confiança, a generosidade e a participação de mais de mil doadores que caminham conosco. A cada uma dessas pessoas, o nosso mais profundo agradecimento: vocês tornaram possíveis as árvores plantadas, o viveiro construído, as sementes cuidadas e os encontros que continuam fazendo a vida germinar. Sem vocês, as sementes não teriam viajado e nada disso teria acontecido.

Nossa campanha segue acontecendo e faltam apenas 15 mil reais! Desde 2023, já arrecadamos R$460 mil e esse valor nos permitiu avançar com a implementação e manutenção dos SAFs na Terra Indígena Puyanawa e a construção do Viveiro de Mudas na Terra Indígena Nukini. Como o nosso projeto é longo – são três anos! – gastos extras surgiram na caminhada e nossa meta, que inicialmente era R$450 mil, passou para R$475 mil. Agora precisamos de R$15 mil para cobrir todos os custos.

Esse é um projeto de comunidade para comunidade, e sua doação importa muito! Para doar acesse olugar.org/reflorestar