Você se lembra de seus primeiros momentos de curiosidade em relação ao mistério da realidade? Qual foi a primeira vez que você sentiu uma inquietação a respeito da vastidão disso que chamamos de vida?

Logo no começo do livro A lógica da fé, Elizabeth Mattis-Namgyel nos convida a refletir sobre isso e nos oferece sua primeira lembrança:

“Quando criança, eu me lembro de andar sozinha até a igreja que ficava a algumas quadras da minha casa para acender velas. Eu não tinha uma ideia segura sobre para quem eu as estava oferecendo. Eu não tinha conceitos sobre fé ou o que eu deveria ou não deveria fazer a respeito da espiritualidade. Apenas me sentia atraída pela luz. A experiência de reverência e humildade que algumas vezes eu encontrei inspirou este impulso inicial para a devoção e fez nascer em mim o desejo de expressá-lo. Intuitivamente, entendi que aquilo foi algo que surgiu no mais profundo da natureza do meu ser, e não me ocorreu nomeá-lo.”

Depois do primeiro encontro do grupo de estudo deste livro, o fórum do lugar ficou cheio de relatos muito tocantes de pessoas lembrando de suas primeiras experiências em olhar com perplexidade para além de suas bolhas.

Não pude evitar lembrar de quando eu tinha 6 ou 7 anos e, deitada antes de dormir, percebia meu coração se acelerar ao tentar responder a pergunta que me surgia: “Quem é o pai de Deus?”. Pode ser que sua experiência também tenha sido de pijama ainda criança na cama, ou na adolescência com a natureza, talvez mais adulto com a religião, com a morte de alguém, com a ciência, com algum filme sobre vida extraterrestre…

Imagens do fotógrafo Alain Laboile

Para cada um de nós, essa experiência veio de um jeito e com uma intensidade diferente. Reuni aqui alguns relatos deste primeiro encontro com a fé que alguns participantes dividiram  conosco:

Se iremos morrer, para onde vamos?

“Me recordo de em uma noite (eu era bem nova, provavelmente tinha no máximo 10 anos)  ter tido uma crise existencial muito forte, na qual eu não conseguia me sentir calma ao pensar que todos nós um dia iriamos morrer, que eu poderia ficar sem meus pais ou eles sem mim. Eu me lembro que foi a primeira vez que me questionei: ‘Se iremos morrer, para onde nós vamos?’, eu vim de uma criação católica e eu não conseguia entender para onde iam tantas pessoas que morriam e por qual motivo eram criadas tantas pessoas… ‘O céu não fica superlotado?’ ‘Por qual motivo Deus cria tantas pessoas assim?’.

Lembro-me de ter chorado muito, de inclusive ter perdido o ar de tão apavorada que fiquei com esse pensamento de simplesmente sumir. Meus pais sem saberem como responder a todos os questionamentos, me disseram que eles estariam comigo enquanto Deus permitir, que precisamos ter fé e que Deus sabe de todas as coisas. Por um tempo essa resposta me foi suficiente para acalmar a minha mente curiosa.”

Paloma

Eu senti o sofrimento do mundo

“Uma lembrança que fica comigo até hoje foi acho que a primeira vez que senti o sofrimento do mundo. Meus pais estavam se separando quando eu tinha uns 10-11 anos e isso não existia no meu mundo até então. Foi um choque, eu nem imaginava que isso seria possível. Daí acho que comecei a me abrir mais… E passei muitos anos fazendo dos filmes a minha meditação. Eu era super fechado, mas nos filmes conseguia chorar. Um deles foi “187, O Código da Violência”, com Samuel Jackson. Fiquei tão impactado com o fim desse filme que fui na janela e acho que passei horas chorando e pensando em como acabar com a violência no mundo.”

Gustavo

De onde vim, pra onde vou?

“Eu me lembro de me levantar antes do dia amanhecer e ir para a faculdade, pra ficar sozinha olhando as primeiras horas da manhã antes da aula e me perguntava, por quê tudo isso, pra quê, de onde vim, pra onde vou. Batia uma solidão, um vácuo.”

Edlaine

Minha avó indo para o céu

“Outra lembrança sobre a espiritualidade foi quando minha avó morreu. Eu tinha 4 ou 5 anos e a Aparecida me disse que ela tinha ido para o céu e apontou em um determinado momento para o alto e dizendo assim: ‘Olha lá, sua vó indo para o céu’. Eu me lembro disso hoje com tanto carinho, como a Aparecida foi bondosa em tentar me dar um momento de despedida com a minha avó. Lembro até hoje como eu olhei para o céu procurando a minha vó Maria, já com saudades dela.”

Débora

As noites de lua cheia

“Por volta dos meus 10 ou 11 anos eu lembro que sempre que era noite de lua cheia eu abria a janela do meu quarto e ficava olhando a lua, só observando. Não sei dizer agora o que aquilo significava pra mim, mas devia ser uma forma de me conectar com a vastidão da realidade, talvez.”

Helmut

Seguimos com grupo de estudo do  livro A lógica da fé dentro da nossa comunidade online. Se você tiver interesse em se aprofundar na natureza interdependente da realidade e nessa atitude curiosa e investigadora com a vida, é só chegar. Todos os encontros são gravados, ficam disponíveis e você pode começar já.

Se quiser participar, todas as informações estão aqui: olugar.org/fe