Não parece, mas estamos nos relacionando o tempo inteiro por um sistema de mensagens que não está no celular

Nossa mente está sempre online

É importante revisitar as nossas relações. Podemos pensar que as relações são estáticas, estabelecidas, guardadas no armário, mas não — estão sempre mudando, como uma cultura de kefir. É como se a gente estivesse o tempo todo mandando mensagens no WhatsApp uns para os outros. Não porque tem uma coisa mística ou mediúnica que vai até o outro, mas porque o cultivo da relação se dá na mente — e a mente está sempre ativa. Pode observar: quando nos apaixonamos, às vezes encontramos o outro apenas no fim de semana, mas é nos outros dias que a conexão fermenta, quando um pensa no outro. Toda relação é assim.

Lembrando dos seres, você pode purificar qualquer complicação que tenha surgido, como se renovasse os votos de casamento na conexão com cada pessoa. Ou pode criar ainda mais camadas de confusão. Quando você está com a mente perturbada e pensa em alguém, é como se começasse a mandar mensagens raivosas ou carentes. Mesmo que não esteja realmente escrevendo algo no WhatsApp, você está se relacionando. Então, é melhor relaxar e ampliar a visão, em vez de ficar ruminando e chamando vários seres para esse ambiente aflito. Acontece direto: tem pessoas que não encontro presencialmente, apenas por fotos no Instagram, quando estou desatento e tomado por algum nível de competição, então sem querer acabo construindo uma relação de inveja, por exemplo. Mas é que eu a revisitei só quando minha mente estava naquela atmosfera. Tome cuidado: sempre que pensamos uns nos outros, criamos as relações.

Do mesmo modo, se estiver com a mente calma ou em um lugar maravilhoso, chame todo mundo! Assim você ama todo mundo naquele momento. Diante do mar, do céu ou de um professor de lucidez, experimente trazer a relação complicada. É como se você mandasse uma mensagem assim: “Tá tudo bem, não tem mais mágoa alguma. Desejo que você seja muito feliz!” E às vezes você vai mesmo ligar ou escrever pra valer. E talvez a pessoa te responda de um outro lugar também. É muito bonito. Uma vez ouvi do Lama Padma Samten que somos como diapasões: você bate em um e o outro vibra junto. As qualidades que cultivamos dentro de nós acabam ressoando dentro dos outros.

Aproveite quando sua mente estiver pacificada, livre da fixação a bolhas e jogos. No final de uma sessão de meditação ou de um retiro silencioso, é muito bom lembrar de mais e mais seres. Também em momentos mais comuns de relaxamento, quietude, expansão, como um filme ou uma música que nos abre. Não dá vontade de abraçar todo mundo nessas horas? Fique um tempo aí. Chame mais gente. Que alegria desejar a felicidade das pessoas que a gente havia esquecido…

A origem desse texto

A origem desse texto foi uma fala que fiz na semana 9 do estudo do livro Um coração sem medo, de Thupten Jinpa, que organizamos na comunidade olugar.org. O querido Paulo Carvalho transcreveu e o texto editado acabou sendo publicado na revista Vida Simples em dezembro de 2017. Se tiver você interesse em ver o vídeo inteiro desse encontro, saiba que há pessoas ainda explorando esse estudo que fizemos em 2017, basta entrar no lugar no link que está ao fim dessa página. Ah, mais recentemente, no último encontro do Intensivo SIM 2021, Ailton Krenak terminou sua fala para nós sugerindo uma prática similar – transcrevemos e também virou prática dentro do lugar.